domingo, 26 de maio de 2019

Em sete anos, dobra a população considerada preta no Ceará


Integrantes da comunidade quilombola Serra Boca da Mata, em Jardim-CE.
(FOTO/Reprodução/YouTube).

Texto | Nicolau Neto

Entre 2012 a 2018, o número da população do Estado do Ceará que se declarou preta dobrou. A informação tem como base os dados publicados na última quarta-feira, 22, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua 2018.


Nesse intervalo de tempo a população preta cearense teve um aumento de 82%, passando dos 253 mil para 480 mil. Em termos percentuais o Ceará conta hoje com 5,3% de pretos/as. Em 2012 o número era apenas de 2,9%.

O Blog Negro Nicolau (BNN) entrou em contato com especialistas em questões étnico-raciais para saber o porquê desse aumento na população cearense que se autodeclarou preta.

Para Valéria Carvalho, do Grupo de Valorização Negra do Cariri (Grunec), “o aumento dos pretos e pardos dar-se à conjuntura em que estamos e o trabalho desenvolvido pelos movimentos negros espalhados pelo país. Essa conjuntura, onde temos a morte da Marielle e os tantos grupos como o Grunec e pessoas como você trabalhando nas bases faz com que as pessoas comecem a se afirmarem”.

Ela disse que ainda precisa refletir sobre a questão, mas a princípio destacou esses pontos. “A conjuntura e o trabalho desenvolvidos pelos diversos grupos estão fazendo as consciências despertarem e as pessoas passam a não mais ter medo de se afirmarem pretos”, afirmou Valéria que ainda citou exemplos:

A exemplo disso temos as comunidades como a de Salitre, Arapuca e de Porteiras. Essas comunidades que a gente trabalha que quando a gente chegava lá para falar de preto e de quilombola era um bicho de sete cabeças, hoje as pessoas se declaram, se afirmam”, pontuou. 

Outro fator que segundo ela tem ajudado para esse aumento é a nova geração das universidades e o tombamento.

Karla Alves, do Grupo de Mulheres Negras do Cariri - Pretas Simoa, atribuiu o aumento dessa autodeclaração ao trabalho desenvolvido pelos movimentos no que pese a valorização negra e do reconhecimento dessa presença no Estado. Quando questionada ela foi taxativa -  Ao nosso trabalho de valorização negra e de reconhecimento de nossa presença e história na construção do estado do Ceará”.


A professor Dra Cícera Nunes, do Departamento de Pedagogia da Universidade Regional do Cariri (URCA), seguiu a mesma linha de Valéria e Karla.

"Eu atribuo a ação dos movimentos negros que tem atuado no sentido de visibilizar a nossa presença e contribuir com o processo de fortalecimento das identidades", destacou ela.

Ainda de acordo com a pesquisa que é feita a partir da percepção de cor e raça do entrevistado e da entrevistada, o número de pardos no Ceará equivale a 65,7%, enquanto que as pessoas que se autodeclararam brancas atingiu 28,2%. Se somados pardos e pretos, o número de negros no Ceará atinge 71%.

Tanto para o IBGE quanto para o Estatuto da Igualdade Racial, a população negra é definida pela soma de pretos e pardo.

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