sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Quatro mulheres, quatro visões: como pensam as candidatas a vice presidenta

(Foto: Cauê Gomes).


Sônia Guajajara, candidata a vice-presidência na chapa do PSOL ao lado de Guilherme Boulos, quer criar uma “lista do machismo”. Empresa que não pagar salários iguais para homens e mulheres que ocupam os mesmos cargos será multada. “Vamos penalizar essas empresas. Precisamos de uma ação radical para acabar com isso”, disse Sônia.

Em resposta, Ana Amélia (PP), vice de Geraldo Alckmin, do PSDB, descartou punições. “Penso que é melhor educar do que punir. Vamos exaltar essas empresas que têm cartilha de equidade como missão. Educação tem um aspecto muito mais didático na mudança cultural”, defendeu a candidata.

As duas participaram do debate “Mulheres na Política”, promovido pelo El País e o Instituto Locomotiva, em parceria com a ONU Mulheres, na manhã desta sexta-feira 28. Ao lado delas estavam Kátia Abreu (PDT), candidata à vice com Ciro Gomes, e Manuela D’Ávila (PCdoB), companheira de chapa de Fernando Haddad (PT).

Quatro mulheres que disputam para ocupar o Planalto no próximo ano – é a primeira vez que o Brasil conta com tantos nomes femininos em chapas presidenciais. Quatro mulheres diferentes, com ideias e discursos diferentes, cada uma com lutas e perfis.

Manuela e Sônia são bem mais progressistas. E abertamente favoráveis à descriminalização do aborto. “Ninguém é a favor do aborto, o que a gente defende é a vida das mulheres. O Estado tem a obrigação de oferecer um atendimento gratuito e de qualidade”, defendeu Sônia.

Ana Amélia, a mais conservadora de todas elas, prefere deixar o papo para o Supremo Tribunal Federal e respeitar a Constituição – que permite o aborto apenas em casos de estupro, se a gravidez oferecer risco à mulher, ou bebê anencéfalo. Mas até cogita pensar mudanças na lei. “Não é conveniente a prisão da mulher, deveria ser substituída por penas alternativas, talvez trabalho voluntário em creches” afirmou, sob vaias de parte da plateia.

No meio delas, a ruralista Kátia Abreu, que já recebeu o “prêmio motosserra de ouro” das mãos de Sônia, oito anos atrás, e defendeu Dilma Rousseff contra o impeachment, passeia entre os dois campos.

Agradece a participação com a “amiga Manuela” no evento e sai em defesa, por vezes, de Ana Amélia. “Melhor educar do que punir”, interveio em apoio à fala de Ana Amélia sobre formas de obrigar empresas a cumprirem equidade salarial. Ou sobre as vaias à senadora do PP. “Acabamos de ver pontos de intolerância aqui. A posição de Ana Amélia contra o aborto gerou intolerância. Estamos imitando o coiso e o vice-coiso [referência a Jair Bolsonaro], para você como quanto é difícil escapar dessa polarização”, explicou.

Kátia faz o jogo da chapa e repete os mesmos discursos de Ciro: queremos unir o Brasil. “Vamos terminar com as brigas e animosidades de coxinhas e mortadelas. É uma luta para pacificar o País”. Até faz sentido à figura dela – de meio de campo – que só não alcança os discursos mais radicais de Sônia. Enquanto exalta a amizade com Manuela e com petistas, entre eles a própria Dilma, não poupa críticas ao PT ou a Haddad.

Concordo que não nos levou a lugar algum [o impeachment e a polarização], há mais pobreza e desemprego. A polarização é muito nociva. O PT, infelizmente, e tenho bons amigos no PT, não aprendeu que a gente pode ganhar e não levar, e brinca muito na beira do abismo”, disse. “Dilma é mulher séria, correta, trabalhadora, tem espírito público, mas não tinha as condições globais de experiência política, da gestão da política. Faltou o que é muito importante na democracia: diálogo. E Haddad, pelo mesmo motivo, foi reprovado em São Paulo, não pela sua pessoa, mas foi reprovado no primeiro turno como gestor. Brasil não é cadeira para aprendizado, precisa de alguém extremamente preparado”, completou.

Ainda que tenham divergências, todas apostam que o momento de força das mulheres na política não irá retroceder – e deve influenciar todas as áreas da política pública. Apostam na valorização da diversidade e equidade de gênero.

Manuela bate na tecla do aumento de vagas em creches públicas e criação de empregos como as melhores saídas. “É preciso revogar a emenda 95 porque precisamos garantir mais creches e voltar a garantir investimentos. Quando falta Estado, quem fica com a responsabilidade é a mulher", defendeu. “Acredito que a principal responsabilidade de garantia de que a gente continue no mercado tem a ver com políticas públicas. Esse negócio de que mulher é mais afetiva, gosta de cuidar é trololó. A gente cuida porque precisa. Queremos ser igual aos homens que cuidam porque gostam, não porque são obrigados”.

Já Sônia promete uma equipe com 50% de homens e 50% de mulheres nos ministérios. “Assim você garante que as mulheres cuidem de questões públicas, sempre ocupadas por homens”, afirmou a candidata.

Ana Amélia prometeu ser atuante e brigar pelas pautas das mulheres. “Já disse que não serei vice-decorativa e que a agenda das mulheres é uma das prioridades na nossa atuação. A questão cultural é onde reside nosso maior desafio, essa cultura de submissão da mulher às vontades do homem”, disse.

E Kátia Abreu, que afirmou que sua gestão será uma “embaixada das causas da mulher brasileira”, deixou um pedido: “Somos a maioria das eleitoras, se temos só 10% das eleitas, somos as primeiras responsáveis”.

Outro quase consenso é sobre a rejeição ao presidenciável do PSL, Jair Bolsonaro. “Esse candidato é antidemocrático e inimigo das mulheres. Por isso, ele não, ele nunca”, disse Manuela, dessa vez sob aplausos.

Sônia se referiu a ele como “tentativa de domínio do fascismo” e Katia se recusou a falar o nome dele (“o coiso”). Ana Amélia, quando questionada sobre a recente declaração de que não votaria no PT no cenário mais provável de segundo turno – Bolsonaro x Haddad – fugiu do assunto. Só quis enfatizar a confiança de que Alckmin estaria no segundo turno. E que, obviamente, votaria nele. Alckmin tem 8% das intenções de voto, segundo última pesquisa do Ibope. (Com informações de CartaCapital).

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