segunda-feira, 21 de maio de 2018

Igualdade e inclusão das pessoas trans: o éden que queremos ver


(Foto: Seaturle/CC).

Vivemos em tempos de zero afetivo. A expressão, criada pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre, em seu "Esboço Para uma Teoria das Emoções", aponta para uma época em que o sofrimento é banalizado. Recusamo-nos a vivenciar a dor e o sofrimento, que é a agonia resultante das injustiças sociais.

Palco da banalização do sofrimento e em tempos de zero afetivo, o corpo é visto como fonte de prazer. A tecnologia avança, o que possibilita ainda mais prazeres. Porém, a educação que forma pessoas aptas a desenvolver tamanha tecnologia também forma humanos particulares – que se preocupam apenas com eles mesmos – em detrimento de humanos universais – os que, de fato, preocupam-se com questões sociais. O resultado é que estamos nos divertindo mais, "transando" mais, porém, com menos afetividade. Estamos vivendo mais, contudo, desorientados.

A existência humana transformou-se em violenta luta pela sobrevivência, a partir de processos de desumanização. Aqui, minorias sociais são percebidas como subalternas, até mesmo como não-pessoas: caso, por exemplo, do dramático cotidiano de pessoas trans e travestis no Brasil.

O pensamento dominante na sociedade brasileira encontra na identidade de gênero de pessoas trans e travestis o componente para legitimar a violência. Na prática, isso impossibilita o acesso de cidadãos e cidadãs trans à formação educacional mínima para sequer ingressar no mercado convencional de trabalho. Aliás, desde que começam a assumir sua identidade de gênero, travestis e transexuais passam a ser "proibidas de viver".

Dados da Rede Nacional de Pessoas Trans no Brasil (Rede Trans), mostram que nosso país é líder mundial em mortes dessa população: em 2017, ocorreram 179 assassinatos – média de uma morte a cada dois dias. Outro aspecto alarmante se refere à educação: 82% de mulheres transexuais, travestis e homens trans abandonam a escola entre 14 e 18 anos, por não mais suportarem as pressões e agressões diárias e a ausência de amparo familiar.

Em uma sociedade pouco leitora e com uma mídia dominada por meia dúzia de famílias e suas próprias conveniências, a perseguição a quem é "diferente" está cada vez mais naturalizada. É comum pessoas trans e travestis estarem em “reportagens” que as julgam negativamente sem direito de defesa, exibindo seus corpos seminus como se tivessem "nascido para a prostituição".

Porém, são raras as matérias e artigos que publicizam as razões para que 90% de travestis e transexuais do país atuarem como profissionais do sexo, conforme pesquisa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). Muito dessa atmosfera de intolerância dos veículos tradicionais de informação é financiada por líderes religiosos fundamentalistas, proprietários ou financiadores da mídia tradicional que são

Ante tal arena e tanta violação de direitos, como o direito a um trabalho digno e ao de utilizar banheiros de acordo com o gênero com que se identifica, resta àqueles que escolheram ser "humanos universais" se posicionar. Que o sofrimento de travestis e transexuais se estenda aos que, indignados com a transfobia, passem a agir socialmente, combatendo o crescente estado de exceção que se instaurou no Brasil, desde o impeachment de uma presidenta democraticamente eleita.

O golpe de 2016 tem, entre tantas fisionomias medonhas, a face da transfobia. Nesses termos, pessoas cis genuinamente preocupadas com tal conjuntura devem contribuir para o debate político, e, consequentemente, para a visibilidade, a garantia de direitos e o respeito a pessoas não-cis.

As pessoas trans e travestis, com suas histórias de superação, incentivam pessoas cis que querem ser humanos universais, a viver de forma positiva com as diferenças. Sobretudo os homens cis héteros, como o autor deste texto: é hora de pensar – e agir – em prol do enfrentamento da discriminação e do preconceito que atingem essa população. Basta de intolerância.

É preciso participar da construção de uma sociedade inclusiva, democrática, que acolha as diferenças e singularidades, que acolha também os que contrariem a regulação moral imposta pelos poderosos.

Esse é o Eden que devemos buscar, não aquele em que os "diferentes", que são também os mais vulneráveis, são expulsos e muitas vezes perdem a vida tragicamente.

Do contrário, continuaremos presos à lógica resumida na frase da psicanalista Melanie Klein (1882-1960): “quem come do fruto do conhecimento, é sempre expulso de algum paraíso”.
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Por Armando Januário, na RBA. Ele sexólogo e pós-graduado em Literatura Brasileira.

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