05 agosto 2017

Escritora Conceição Evaristo recebe Medalha Pedro Ernesto


Aplaudida de pé durante dois minutos, por cerca de 400 pessoas, a atriz Ruth de Souza foi às lágrimas na abertura da sessão que homenageou a escritora Conceição Evaristo, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro na noite da última terça-feira, 1/7.

Conceição Evaristo, doutora em Literatura Comparada pela UFF, recebeu a maior honraria da casa legislativa, a Medalha Pedro Ernesto, fruto de requerimento apresentado pela vereadora Marielle Franco (PSOL), aprovado por unanimidade no início de junho.

Do Ceert - Bastante idosa, a primeira atriz negra do teatro, do cinema e da televisão brasileira, dividiu a bancada de homenagens com outras importantes mulheres negras: Flávia Oliveira, jornalista e economista (O Globo), Jurema Werneck, diretora da Anistia Internacional no Brasil, Mãe Meninazinha de Oxum, Iyalorixá, Patrícia Oliveira, membro do Mecanismo de Combate à Tortura do Rio, e a vereadora Marielle Franco (PSOL), que presidiu a sessão. Após a saída de Ruth de Souza, a vereadora de Niterói Talíria Petrone passou a ocupar sua cadeira.

Sob o lema “Eu Mulher Negra Resisto”, Conceição Evaristo foi reverenciada por sua contribuição literata às artes e, sobretudo, por sua trajetória - uma intelectual que nasceu na pobreza e hoje contribui para a autoestima e para que as mulheres negras se apropriem de sua identidade, trajetória e história, tendo os lugares de memória e as experiências de afeto como elementos importantíssimos em suas narrativas.

As quase 400 pessoas presentes à solenidade eram, em maioria absoluta, mulheres negras. Seus múltiplos tons de pele, turbantes coloridos e lindos penteados imprimiram o contraste estético à Casa que, historicamente, é ocupada por homens brancos.  Também foi a primeira vez que a Câmara contou com o serviço de tradução de libras em uma sessão, que foi executado por uma mulher trans negra, Alessandra Makkeda que, com a palavra, ressaltou que estar ali significava seguir o exemplo de Conceição, que é a “escrita de si”.

A sessão foi aberta com a apresentação do teaser do filme em produção “Voz, Cor e Luta”, do coletivo Feminicidade.  Várias mulheres da plateia, representantes de movimentos e coletivos, também foram ao púlpito para prestar homenagens à Conceição, como Clatia Vieira (Fórum de Mulheres Negras), Zica de Oliveira (Criola), Lázia dos Santos (Afoxé Filhos de Gandhi), Cassia Marinho (Iporinchè) e Vilma Piedade (Mulher Preta de Axé e Partida).

À mesa, Jurema Werneck exaltou a potência da mulher negra, responsável pela resistência histórica ao machismo e ao racismo. “Conceição traz a palavra que faz a mulher negra existir na literatura e na vida. Se a dor é real, também é real essa mulher que segue adiante, fazendo existir outras mulheres cercadas pelo silêncio e pela invisibilidade. O racismo diz silêncio, você, Conceição, diz palavra”, concluiu.

Para Mãe Meninazinha de Oxum, não havia palavras que pudessem explicar o quanto é bom ver tanta mulher preta junta: “Nós temos esse  ireito de estar aqui nesse lugar” disse, muito emocionada.

Irmã de vítima da violência do Estado, Patrícia Oliveira lembrou que no sistema prisional, seu lugar de trabalho, a população negra corresponde a mais de 70% dos presos, sendo nos presídios femininos esse número ainda maior. Lembrou, ainda, que são muitos os momentos de luta e violência e poucos os momentos de homenagem e celebrações capazes de juntar tantas mulheres negras. E deu um recado à juventude: “É preciso tomar conhecimento da sua história e aprender a ocupar esses espaços, como faz a Marielle. Somos capazes de sermos juízas, governadoras e escritoras. Podemos chegar aonde quisermos”.

A jornalista e economista Flavia Oliveira também ressaltou a representatividade muito aquém dos matizes e tradições nos espaços como este parlamento, criado por e para a ocupação  de homens brancos. “Eu poderia falar das mulheres negras subrepresentadas no mercado de trabalho, à frente de famílias, na vulnerabilidade, nos subempregos...  isso tudo está nos escritos de Conceição Evaristo. Lá nos reconhecemos.  Mas vou falar sobre algo que aprendi também com ela. Sobre o porquê o povo negro festeja. O toque do tambor nas nossas celebrações nos coloca em contato com o divino. Cantamos e dançamos para ficarmos fortes para suportarmos a barra de existirmos e seguir em frente”, disse muito emocionada.

Flavia pediu licença para falar da campanha “O Brasil é quilombola, nenhum quilombo a menos”, que defende que o Supremo Tribunal Federal (STF) mantenha a titulação de territórios quilombolas no Brasil. A ADI 3.239, apresentada pelo antigo Partido da Frente Liberal (PFL), atual Democratas (DEM) ao Supremo Tribunal Federal, em 2004, pede a paralização dos processos para titulação de terras quilombolas no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), além de ameaçar os já titulados. O julgamento foi retomado e deverá acontecer em agosto.

A vereadora niteroiense Talíria Petrone também reforçou a campanha pela manutenção dos espaços quilombolas ao homenagear Conceição: “Sua poesia é grito para nós, é identidade e ancestralidade, nos retira da cadeia do embranquecimento e resgata nossa força e resistência. Sejamos quilombo!”, bradou.

O grupo Mulheres de Pedra se apresentou ao final do evento, recitando poesias de Conceição e distribuindo flores às participantes da mesa.

Com a palavra, Conceição Evaristo agradeceu a homenagem e fez uma comparação com o momento em que foi condecorada com o Prêmio Jabuti de Literatura. “Seria uma falsa modéstia dizer que o Jabuti não me envaidece. Claro que sim. Mas o que me deixa tranquila e contempla minha literatura é que ela significa mesmo a voz de todas. E isso que aconteceu aqui. Esse lugar de recepção é que tem levado meus textos adiante. Minha vida não começa no Jabuti. Tenho muita honra de ter passado por editoras que nasceram com a missão de publicar autoras negras. Também quero dizer que minha celebração hoje está, sobretudo, ligada à minha vida no magistério. Vim ao Rio para ser professora. Foi para isso que me preparei. Minas Gerais me deu régua e compasso, alguma experiência em movimento social. Mas foi aqui no Rio que encontrei a inserção no movimento negro e de mulheres. Sou uma carioqueira”, brincou Conceição ao receber a maior condecoração oferecida pela Casa a quem mais se destaca na sociedade brasileira ou internacional.


Autora do requerimento que concedeu a honraria à escritora, a vereadora Marielle Franco lembrou que conheceu a literatura de Conceição Evaristo na juventude, através de uma tia. E revelou que, desde o primeiro dia de seu mandato, tinha como meta promover, em nome do Rio de Janeiro, esta homenagem. “Aqui nesta casa, somos resistência. Saímos fortalecidas deste lindo evento, como flores que rompem o asfalto. Ainda ocuparemos muito esse espaço, que precisa ser enegrecido cada vez mais. E nosso mandato, que é coletivo, está aqui para lembrar disso e resistir”, concluiu encerrando a sessão.

Foto: Reprodução/ CEERT.

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