19 julho 2017

Questionada se “faz faxina”, historiadora negra responde: “Não. Faço mestrado. Sou professora”


Em contundente relato, a historiadora Luana Tolentino, que já foi babá e empregada doméstica e que recebeu a Medalha da Inconfidência de 2016, contou essa e outras experiências que passou ao longo de sua vida por conta do racismo institucional enraizado em nosso país.

Da Revista Fórum - “No imaginário social está arraigada a ideia de que nós negros devemos ocupar somente funções de baixa remuneração e que exigem pouca escolaridade”. 

Leia a íntegra e se emocione:

Hoje uma senhora me parou na rua e perguntou se eu fazia faxina.

Altiva e segura, respondi:

– Não. Faço mestrado. Sou professora.

Da boca dela não ouvi mais nenhuma palavra. Acho que a incredulidade e o constrangimento impediram que ela dissesse qualquer coisa.

Não me senti ofendida com a pergunta. Durante uma passagem da minha vida arrumei casas, lavei banheiros e limpei quintais. Foi com o dinheiro que recebia que por diversas vezes ajudei minha mãe a comprar comida e consegui pagar o primeiro período da faculdade.

O que me deixa indignada e entristecida é perceber o quanto as pessoas são entorpecidas pela ideologia racista. Sim. A senhora só perguntou se eu faço faxina porque carrego no corpo a pele escura.

No imaginário social está arraigada a ideia de que nós negros devemos ocupar somente funções de baixa remuneração e que exigem pouca escolaridade. Quando se trata das mulheres negras, espera-se que o nosso lugar seja o da empregada doméstica, da faxineira, dos serviços gerais, da babá, da catadora de papel.

É esse olhar que fez com que o porteiro perguntasse no meu primeiro dia de trabalho se eu estava procurando vaga para serviços gerais. É essa mentalidade que levou um porteiro a perguntar se eu era a faxineira de uma amiga que fui visitar. É essa construção racista que induziu uma recepcionista da cerimônia de entrega da Medalha da Inconfidência, a maior honraria concedida pelo Governo do Estado de Minas Gerais, a questionar se fui convidada por alguém, quando na verdade, eu era uma das homenageadas.

Não importa os caminhos que a vida me leve, os espaços que eu transite, os títulos que eu venha a ter, os prêmios que eu receba. Perguntas como a feita pela senhora que nem sequer sei o nome em algum momento ecoarão nos meus ouvidos. É o que nos lembra o grande Mestre Milton Santos:

“Quando se é negro, é evidente que não se pode ser outra coisa, só excepcionalmente não se será o pobre. (…) Não será humilhado, porque a questão central é a humilhação cotidiana. Ninguém escapa, não importa que fique rico.”

É o que também afirma Ângela Davis. E ela vai além. Segundo a intelectual negra norte-americana, sempre haverá alguém para nos chamar de “macaca/o”. Desde a tenra idade os brancos sabem que nenhum outro xingamento fere de maneira tão profunda a nossa alma e a nossa dignidade.

O racismo é uma chaga da humanidade. Dificilmente as manifestações racistas serão extirpadas por completo. Em função disso, Ângela Davis nos encoraja a concentrar todos os nossos esforços no combate ao racismo institucional.

É o racismo institucional que cria mecanismos para a construção de imagens que nos depreciam e inferiorizam.

É ele que empurra a população negra para a pobreza e para a miséria. No Brasil, “a pobreza tem cor. A pobreza é negra.”

É o racismo institucional que impede que os crimes de racismo sejam punidos.

É ele também que impõe à população negra os maiores índices de analfabetismo e evasão escolar.

É o racismo institucional que “autoriza” a polícia a executar jovens negros com tiros de fuzil na cabeça, na nuca e nas costas.

É o racismo institucional que faz com que as mulheres negras sejam as maiores vítimas da mortalidade materna.

É o racismo institucional que alija os negros dos espaços de poder.

O racismo institucional é o nosso maior inimigo. É contra ele que devemos lutar.

A recente aprovação da política de cotas na UNICAMP e na USP evidencia que estamos no caminho certo.



9 comentários:

  1. Eu sinto muita vergonha por ser branca. Minha alma nunca aceitou os estigmas dado ao povo negro ! Gente valorosa ! Peso que os brancos sentem é inveja do povo negro. Eu só posso imaginar o sentimento que o racismo desperta e qdo tento me colococar nesse lugar é uma sensação intolerável de injustiça !

    ResponderExcluir
  2. Olá me lembro de minha infância quando eu vendia picolé, laranja e peixe. Mais estudava e muito. Minha cor de pele não é negra mais me lembro quando finalmente passei em concurso público em que a média era de 120 candidatos por vaga e uma senhora disse: Ele só acredito vendo. Essa senhora era negra. Após formado me apresentei em frente a ela e mostrei meu diploma. A inaceitação do ser humano como ser humano é algo muito mais social do que de cor. Sei que muitos aqui não vão concordar. Mais ser pobre é a forma mais forte de racismo nesse país.

    ResponderExcluir
  3. Não deveria haver nenhum constrangimento em ser alvo do pré conceito das pessoas. O pré conceito denota, além de um problema de caráter, baixa inteligência e que não cabe mais, nesse mundo onde as raças estão interligadas de muitas maneiras, a falta de informação a despeito do esse sentimento irracional trouxe de malefícios a humanidade.

    ResponderExcluir
  4. A realidade é cruel com os negros. Mas temos que nos acostumar. Não me refiro ao racismo, mas sim às atitudes racistas cercadas de caras impressionadas. Sabemos que essa chaga é profunda e que por muito tempo teremos que ver caras constrangidas e sem saber o que fazer por acharem que somos iguais... Até aparecer um negro graduado. Só somos iguais se não tivermos estudo e nem sapiência. Se temos isso, percebemos o tamanho do racismo e do preconceito presente em cada pessoa.
    Evaristo, graduando em agronomia

    ResponderExcluir
  5. Ótimo texto. Parabéns Luana Tolentino por sua trajetória e lucidez!

    ResponderExcluir
  6. A moça é jovem se comparada com meus 54 anos. Nem por isso deixamos de viver experiências semelhantes, sinal de que este racismo institucional continua o mesmo. Eu até mudei de continente. Pensa que me livrei dele? Engano seu. Guardadas as devidas proporções, como a criminalidade. Aqui neste país onde vivo, a Alemanha dos que querem se livrar do peso do nazismo, também existe este mesmo racismo. Eu sou professora, como a Luana, com mestrado, mas tanto alunos, quanto outras colegas, e até mesmo nas empresas, pensam que sou mais uma aluna, talvez africana, a aprender alemão. E desta forma sou abordada. Mal sabem eles que ensino o idioma há tantos anos. E com tanta competência. Se isso vai acabar um dia? Um dia, sim. Mas está longe. A luta continua.

    ResponderExcluir
  7. Essa é a realidade do negro, infelizmente! Quando as pessoas se lembrarem que cor de pele é apenas uma roupagem para um corpo, que o real é a essência, a mente, a consciência de cada um é que importa, então poderemos dizer que entenderam que todos somos seres humanos. Com todo respeito à crença de cada um, mas com base na liberdade de credo religioso, conforme o Artigo. 5° da nossa constituição, digo que somos seres espirituais que ocupam corpos físicos, e que temos uma "consciência", legado do Grande Pai, o Criador. Quem não respeita as diferenças existentes não respeita as Leis Maiores da natureza, nem as leis humanas que respaldam as diversidades, e há de responder por isso, a qualquer tempo. As leis humanas cada vez mais cobram dos cidadãos o respeito ao outro, embora ainda não sejam punidas muitas pessoas que não cumprem essas leis. Sei, por experiência, que pior é ser cobrado pelas leis divinas, muito pior. A lê de ação e reação é única para todos, sem exceção.
    No Brasil, o último país a promover a liberdade dos escravos, o que já foi e é ainda causa de vergonha, é necessário denunciar toda forma de ofensa à integridade da pessoa devido à cor da pele. Ficar calado, aceitar sem argumentar, não promove mudança. Temos que combater o erro, mostrar que somos todos iguais, seres humanos, todos temos direito a uma vida digna, com respeito uns pelos outros.

    ResponderExcluir
  8. Essa é a realidade do negro, infelizmente! Quando as pessoas se lembrarem que cor de pele é apenas uma roupagem para um corpo, que o real é a essência, a mente, a consciência de cada um é que importa, então poderemos dizer que entenderam que todos somos seres humanos. Com todo respeito à crença de cada um, mas com base na liberdade de credo religioso, conforme o Artigo. 5° da nossa constituição, digo que somos seres espirituais que ocupam corpos físicos, e que temos uma "consciência", legado do Grande Pai, o Criador. Quem não respeita as diferenças existentes não respeita as Leis Maiores da natureza, nem as leis humanas que respaldam as diversidades, e há de responder por isso, a qualquer tempo. As leis humanas cada vez mais cobram dos cidadãos o respeito ao outro, embora ainda não sejam punidas muitas pessoas que não cumprem essas leis. Sei, por experiência, que pior é ser cobrado pelas leis divinas, muito pior. A lê de ação e reação é única para todos, sem exceção.
    No Brasil, o último país a promover a liberdade dos escravos, o que já foi e é ainda causa de vergonha, é necessário denunciar toda forma de ofensa à integridade da pessoa devido à cor da pele. Ficar calado, aceitar sem argumentar, não promove mudança. Temos que combater o erro, mostrar que somos todos iguais, seres humanos, todos temos direito a uma vida digna, com respeito uns pelos outros.

    ResponderExcluir
  9. Maravilha! Inspirador!
    E Viva, também o Grande Mestre Milton Santos.
    Que seu belo sorriso não se renda, jamais!
    Obrigada.
    Avante! Luana Tolentino.

    ResponderExcluir

Ao comentar, você exerce seu papel de cidadão e contribui de forma efetiva na sua autodefinição enquanto ser pensante. Agradecemos a sua participação. Forte Abraço!!!