domingo, 6 de dezembro de 2015

Metodologia da afrodescendência: uma discussão introdutória, por Henrique Cunha*


As ordens de fatores que relacionam a necessidade, a disponibilidade e o interesse pela pesquisa em determinado tema e com enfoque especifico quanto a base teórica, metodologia e caminhos interpretativos e organizativos da produção de conhecimento é um terreno de conflito e que se explicita com grande força quando se trata da pesquisa com opção da metodologia afrodescendente. A principal razão explicita é que ocorre uma ruptura de perspectiva sobre o conhecimento, este elege a população negra como fonte ativa do conhecimento e não como objeto. De maneira subjetiva interfere na relação intima da nossa sociedade sobre os racismos antinegro mentais, a nossa sociedade é perpassada pela ideia da superioridade e de supremacia do pensamento ocidental. Propor o africano e afrodescendente como pensadores ativos fere as ordens mentais instituídas e praticadas. Varias são estas ordens de fatores que relacionam a pessoa do pesquisador, seu coletivo de origem e os temas e posturas sobre os temas e sobre a forma científica de trata-los (questionamentos que eram apenas realizados como uma opção entre o popular e erudito, entre o despossuído e possuidor (despossuído de poder político, cultural e social ou apenas despossuído de poder dos meios de produção), ou entre funcionalismo e marxismo, hoje com a presença dos afrodescendentes falando de conhecimento africano e de populações de origem africana introduz novo e precioso debate na epistemologia das ciências no Brasil. Debate ainda não declarado como existente e necessário, mas em vias de explicitação, explicitação que renasce com a fundação da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros e não ganha corpo nacional em razão da timidez de ações realizadas pelos próprios afrodescendente, timidez explicada em face das pressões a que estamos submetidos.

Professor Henrique Cunha, da UFC.
Foto: Rede Social Facebook.
O tema de pesquisa eleito é percebido como estar na ordem das rupturas e das normalidades cientificas, reside no campo da especificidade ou da universalidade do conhecimento, traduz a persistência da pratica sobre a teoria ou da teoria sobre a pratica, ou da alternância entre elas?. A ordem pessoa do pesquisador, sua filiação subjetiva e objetiva com o tema e com a forma da pesquisa.? Trata-se de uma ordem de ser e ter propriedade de dentro ou de fora da porteira do horizonte do tema de pesquisa?. Carrega a ordem de pensar a pesquisa no campo micro complexo e microfacetado ou com parte do campo macro ordenado ( o conflito é parte do macro-ordenamento)?. Poderíamos de forma resumida e pouco explorada sintetizarmos estas ordens nos seguintes grupos de problemas sobre a aquisição do conhecimento e sua sistematização (vejam que a aquisição é diferente de sistematização, conhecer é diferente de dar a saber que conhece, que dar a saber como difunde) como: ordem do conhecimento e a ciência ocidental- universal;ordem da relação sujeito-sujeito ou de sujeito-objeto de pesquisa, melhor dizendo o pesquisador dentro da pesquisa e em transformação ou consolidado e apenas operador do conhecimento, ser operador do conhecimento ou ser parte do conhecimento em processo, ser transformador-transformado; a ordem do ator-pesquisador ou pesquisador o pesquisador, onde mesmo atua inscrevendo os atos ou atua como participante da plateia, a ordem de compreensão dos contextos, tanto da pesquisa como do tema pesquisado. A pesquisa é importante para um movimento da dinâmica social do qual o pesquisador faz parte ou faz parte do interesse pessoal apenas, o que é amplamente legitimo importante e de consequências ambas importantes, mas que de interações com a sociedade e com a sociedade cientifica muito particulares.

A ciência tem as suas normalidades e as rupturas. A normalidade apresenta e representa a aceitação de um determinado estado de coisas. Normalidade foi atingida pelas teorias marxistas embora estejam em contraposição com a organização do estado liberal, com a organização da sociedade capitalista, com o poder econômico, e fale em nome das classes trabalhadoras, estas teorias estão em perfeita conformidade com um campo do conhecimento estabelecido e cristalizado de normalidade quanto a aceitação cientifica dos seus dogmas, princípios e bases teóricas. O marxismo é um modelo consolidado no campo cientifico, faz parte da normalidade e não mais da transformação inovadora em termo de aceitação cientifica. Perdeu seu potencia de introduzir novas ideias de base teóricas e criou um léxico de repetições e recriação das mesmas ideias e não de proposição de novas interpretações da sociedade e da cultura humana. Também representa o predomínio da pesquisa teórica sobre a empírica. Desta em perfeita harmonia estável com as teorias do racionalismo cientifico ocidental. Entrou para parte operante do conhecimento ocidental como forma de dominação sobre os conhecimentos africanos e asiáticos.

Entretanto o pan- africanismo os enfoques do conhecimento tendo como base a cultura africana, os princípios de parte dos conhecimentos Egípcios, Núbios, Etiopês, Bantos e Iorubanos, das concepções do conhecimento africano como fonte importante do conhecimento da humanidade estão ainda sobre forte contestação em relação ao conhecimento ocidental, trata-se de um campo de tensão, de ruptura. A Grécia e o conhecimento gregos não são os pilares do conhecimento ocidental, no entanto uma grande ideologia em torno deste paradigma produziu o ocidente como forma e força política, cultural, científica e econômica. Impõe a ordem de fatores na pesquisa cientifica, de que a teoria precede a pratica, o campo empírico perde seu potencial de fonte e torna-se apenas local de constatação, exemplificação e aplicação da teoria. Condiz com um paradigma cientifico do ocidente que a possibilidade de universalização do conhecimento. Diz que uma teoria pode abarcar todas as situações da vida humana. Aceita a proposição que a teoria é superior a pratica, os teóricos são ilustres os práticos são seus discípulos, portanto pensadores reprodutores e não pensadores instituidores de novos paradigmas e novas ideias.

Principal ordem de fatores é a relação do tema da pesquisa com o conhecimento de vida e envolvimento do pesquisador. A bagagem previa do autor, do pesquisador com tema modifica em muito as capacidades de acesso ao conhecimento e informação ofertado pelo tema pesquisado. Neste sentido a pesquisa afrodescendente é uma metodologia de postura nova, relacionando a ação a pesquisa, procurando uma dialética entre ação – pesquisa-ação , tendo como partida o campo e o conhecimento sobre o campo e procurando a construção explicativa teórica depois como consequência e não como fonte. Esta no campo da discussão da epistemologia das ciências e das rupturas necessárias para integração do continente africano, de africanos e descendentes como produtores de um conhecimento, com base na experiência criadora de populações africanas e negras na diáspora. Implica no caso brasileiro em considerarmos os africanos como colonizadores do Brasil, devido a herança cultural e material, e não os portugueses, como também reconhecer o africano e descendente, como pensador, vindo de comunidades pensantes e realizadores dos ato criador e civilizador também, como todos os outros povos. No campo ético o respeito ao conhecimento pelo nosso próprio conhecimento e protagonismo social. Não se trata de um conhecimento “vindo de baixo” como a historia tem apresentado como visão inovadora, trata-se de conhecimento produzido no fazer social, nas dinâmicas das sociedades.

*Professor da Universidade Federal do Ceará (UFC)

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