sábado, 14 de novembro de 2015

Falta de receptores e de estruturas adaptadas está levando a perda da memória e da história indígena


Com a palavra, Juca Ferreira, Ministro da Cultura, quando participou, em 2007, como secretário executivo do MinC, de um evento em celebração da cultura dos povos indígenas:


É uma grande alegria para mim e para todos nós, do Ministério da Cultura, estarmos hoje aqui celebrando a diversidade da cultura dos povos indígenas do Brasil. Esta é uma oportunidade para que todos os brasileiros comecem a perceber que aqueles que nos acostumamos a chamar, de uma maneira genérica e redutora, de ‘índios’, constituem, na verdade, um conjunto de povos muito diferentes entre si, povos com uma extraordinária diversidade cultural. Construímos um país sincrético, múltiplo e diverso. (…) Temos hoje consciência de que nós, brasileiros em geral, somos o que somos em grande parte graças a vocês, indígenas.

Podemos considerar como evidente que toda relação intercultural saudável implica o respeito ao outro e o desejo de compreendê-lo por aquilo que ele é, e não através do filtro do nosso próprio condicionamento. As culturas são como rios, como disse o antropólogo Marshall Sahlins, pois não se pode mergulhar duas vezes nas mesmas águas, porque elas estão sempre mudando. E quanto maior for o grau de partilha, mais democrática, criativa e tolerante será nossa sociedade.

Nesse sentido, é normal que, num dado momento do seu desenvolvimento, uma sociedade seja levada a abandonar ou a modificar esta ou aquela forma tradicional de sua cultura, na medida em que esta não responde mais às aspirações antes cultivadas. Não fazer esta modificação seria levar à cultura à esclerose e ao imobilismo.

Mas o que hoje consideramos como grande risco é a perda da memória, da história desses povos. Conjuntos inteiros de conhecimentos, fielmente transmitidos de uma geração para outra durante séculos de tradição oral, estão desaparecendo por falta de receptores e de estruturas adaptadas à sua transmissão. Estou pensando em particular no imenso domínio dos mitos e de outras histórias tradicionais, portadores de sabedorias ancestrais e fontes de saberes e de formas de vida incomparáveis. Estou pensando na grande quantidade de línguas ameaçadas.

Durante dez mil anos os povos indígenas acumularam valiosos saberes, culturas, artes e tecnologias extremamente sofisticadas. Aprenderam a viver em seus diferentes ecossistemas, seja a floresta tropical, o cerrado ou os pampas, onde identificaram inúmeros tipos de árvores frutíferas e desenvolveram uma medicina própria a partir dos conhecimentos tradicionais.

Também desenvolveram um rico patrimônio artístico que vai desde a cerâmica, a tecelagem e a arte plumária até a arquitetura, os grafismos corporais. Tiveram primazia no campo da astronomia e desenvolveram técnicas de caça, pesca e coleta. Sem nos esquecer de que toda atividade indígena está impregnada de senso estético, o que demonstra o nível de sofisticação e sensibilidade desses povos.

#ArteKusiwa #PatrimônioMundial – A arte Kusiwa celebra 12 anos de reconhecimento como Patrimônio da Humanidade. O título concedido pela Unesco, em 2003, ressalta a importância desta representação para os povos indígenas Wajãpi, no Amapá. Além de simbolizar um adorno, a pintura está diretamente ligada ao cotidiano, à organização social da comunidade e aos conhecimentos tradicionais passados de pais para filhos. 
Essas manifestações têm despertado interesse crescente da sociedade, envolvendo fins científicos, informativos, educacionais e comerciais. Da mesma forma, as nossas manifestações culturais têm interessado os indígenas, como computadores, internet banda larga, câmera digital, ilhas de edição etc. Gravam seus próprios filmes e CDs. Esta interação é positiva. Afinal, essas trocas constantes e essa antropofagia cultural fazem parte das vitalidades das culturas.

Devemos, sim, valorizar suas culturas, mas sem pretender congelá-las, nem preservá-las de uma forma artificial, até porque hoje muitos indígenas precisam recriar linguagens e costumes, ou seja, reinventar-se para criar um presente a partir de um passado.

O desafio de implementação no Brasil dos princípios da Convenção da Unesco sobre a Proteção e a Promoção das Expressões Culturais passa pela criação de políticas públicas capazes de abranger a perspectiva dos diferentes povos que contribuem para a construção do cenário cultural brasileiro.

(…) Ao Ministério da Cultura cabe a tarefa da desconstrução das representações de desigualdade na cultura brasileira. Para todos nós, a diversidade cultural brasileira e mundial deve ser libertada de todas as formas de racismo, discriminação e preconceitos de modo que seja possível a democracia cultural e o convívio fraterno entre os povos.”

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