23 agosto 2014

Texto do UOl listando belas candidatas reforça a ideia de as ver como adornos, diz Laura Reis


Na última quinta-feira (21), o portal UOL Eleições 2014 publicou uma matéria onde lista “as mais belas candidatas” que disputam votos neste ano, gerando críticas por parte de militantes feministas.

Foto: Reprodução/Captura do site Uol Eleições 2014
O texto, escrito pelo jornalista Vinícius Segalla, considera a presença dessas candidatas uma forma de tornar o horário de propaganda eleitoral mais “palatável”. Para Segalla, elas “mostram que belos traços, sorrisos encantadores e sensualidade são características que sobram, também, na política nacional”.

A candidata a deputada estadual de São Paulo pelo PSOL Isa Penna, uma das mulheres presentes na lista do portal, publicou em sua página do Facebook uma nota onde exige que sua foto seja removida da matéria, que considera machista e desrespeitosa. “Esse tipo de matéria só demonstra mais uma vez como é essencial que, nós mulheres, ocupemos cada vez mais os lugares públicos e políticos da nossa sociedade, para demonstrarmos para este tipo de pessoas que podemos sim lutar pelos nossos direitos, que temos que ter o protagonismo na tomada de decisões que envolvam toda nossa comunidade e que nossas ideias devem ser levadas em conta. Nossa participação na sociedade não pode ser resumida à de objeto sexual, e iremos enfrentar a mídia e grandes interesses para provar isso”, declarou Penna.

Segundo o professor universitário Moisés Saraiva, a exigência da candidata Isa Penna é uma questão delicada no âmbito jurídico. “Há dois grandes direitos em conflito: um que é o da liberdade de imprensa, principalmente no caso de ser uma candidata a deputada estadual, e o direito a honra e a imagem”, explica.

Saraiva, que ensina Direitos Humanos no curso de Direito da Universidade Regional do Cariri (URCA), considera que a matéria é sexista e reduz as mulheres à condição de “objetos a serem degustados”, mas a grande dificuldade do caso seria a superação dos valores machistas naturalizados no próprio sistema judiciário. Na opinião de Saraiva, “ao solicitar que sua foto fosse retirada, por se sentir ofendida, objetificada, entendo ser possível discutir, a nível judicial, a retirada, principalmente após o decurso de prazo razoável do pedido feito pela candidata ao site”. Mas adiciona: “dentro de um contexto de uma sociedade machista, homofóbica, preconceituosa em sentido amplo, vejo que um processo por parte da deputada poderia não ser deferido, haja vista que há até juízes que não reconhecem a exploração sexual de crianças e adolescentes femininas por serem profissionais do sexo”.

Para a militante feminista Laura Reis, a matéria é machista porque apresenta as candidatas como adornos. “Vivemos ainda em uma sociedade que exige beleza das mulheres como uma obrigação e na qual as mulheres são, sempre e primeiro, avaliadas pela sua aparência para só depois serem julgadas pelo que têm a dizer”. Ainda analisando a escolha das fotos, Reis salienta que o padrão de beleza ali representado também evidencia o racismo no Brasil: “O fato de que o número esmagador de mulheres que figuram em uma matéria sobre beleza sejam brancas apenas evidencia a permanência de um padrão racista e eurocêntrico de beleza, que exclui a real diversidade étnica brasileira”, completa.

Até o fechamento dessa pauta, o site UOL Eleições 2014 não havia removido a foto da candidata Isa Penna e nenhuma nota foi publicada a respeito.

A análise é Jarid Arrais e foi publicado originalmente na Revista Forum

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