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#Condenado a Esperança, Por Nicolau Neto. (Foto: Lucélia Muniz). |
Não
é fácil conviver. Não é simples conviver. Ou melhor, simples é. Nós é que
acabamos por complicar o que parece fácil e simples.
Complicamos
quando colocamos interesses particulares acima do coletivo; quando achamos que
a nossa religião é a verdadeira e as dos outros não; Que o meu deus salva e o
do outro não; Quando isolo ou expulso o outro ou a outra de um determinado
lugar – mesmo que esse lugar seja o que convencionou-se chamar de “sagrado” –
só porque ele ou ela não crê em deus; complicamos ainda quando só o meu partido
político pode fazer uma boa administração e outro irá apenas se beneficiar e
esquecer os interesses sociais;
Complicamos
mais quando achamos que só os homens podem ocupar cargos políticos e que as
mulheres devem apenas acompanha-los em cerimônias; quando pensamos e agimos de
tal modo que somente homens e mulheres brancas é que devem ocupar os mais
variados espaços de poder – exercendo, por exemplo, as funções de
secretários/as municipal de educação, cultura, assistência social, saúde,
infraestrutura, agricultura, meio ambiente; diretor/a e coordenador/a de
escolas; complicamos também quando deixamos perpetuar o racismo, a homofobia e
o machismo no ambiente político partidário, pois se olharmos bem não há hoje no
legislativo municipal nenhum negro e nenhum homossexual, pelo menos que tenha
se declarado.
Conviver
acaba por se tornar difícil e complicado quando quem mais poderia ajudar a
superar as desigualdades sociais são os que fazem de tudo para que ela
permaneça, pois sem ela não há como se manter nos mais variados cargos
políticos. Ter uma infinidade de pessoas passando necessidades em casa, tendo
que vender a janta para almoçar no dia seguinte se torna um prato cheio para os
políticos de carreira, pois é a sua garantia da volta ao poder, ou permanecer
nele. Irônico, não é?
Nos
entristece quando vemos e ouvimos que temos que trabalhar por amor e que
qualquer tentativa que frustre esse delirante pensamento é tachado como um ato
de rebeldia extrema e que o simples fato de lutar por melhores condições de
trabalho pode ser visto como um fato político partidário aos olhos de quem está
no poder. Entre o trabalhar por e com amor há uma distância considerável. Nos
deixa enojado quando uma causa que é de todos, acaba não sendo abraçada por
todos. Nenhum espaço de trabalho pode ser visto como um templo religioso e
nenhum trabalhador pode se deixar confundir com um sacerdote, embora a
realidade nos mostre que muitos se tornam um.
Infelizmente
essa é a realidade, onde a regra do jogo é pré-estabelecida e a grande maioria
não tem a audácia de muda-la.
Mas
há espaços para a esperança? Esperança de um mundo onde o princípio
constitucional estabelecido em seu Art. 5º que diz “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade...” seja respeitado? É possível manter a esperança em uma país
onde os direitos que custaram mais caro ao povo como a direito de escolher seus
próprios representantes não está sendo levado em conta por simples apego ao
poder? Devemos nos manter esperançosos em um pais onde a cor da pele ainda
define que lugar ocuparemos na sociedade? Podemos ter esperança onde a religião
ainda reina absoluta condenando quem possui orientação sexual divergente da que
elas acreditam ser a correta? Há espaços em nossas mentes para nos manter
esperançosos onde números valem muito mais que pessoas, principalmente na
educação?
Sim.
É possível um mundo melhor. É necessário mantermos as esperanças vivas e bem
vivas. As poucas luzes no fim do túnel acenam que o caminho é a educação.
Quando vemos jovens alunos tanto do ensino básico quanto do superior ocupando
escolas e universidade e se juntando aos poucos professores em luta, enquanto
que outros que deveriam estar em luta, mas não estão. Acreditamos que a
situação ainda pode ser revertida. A esperança se mantém quando testemunhamos
alunos fazendo o que muitos professores e professoras não fazem – lutar por um
espaço de estudo melhor para si para seus mestres, além de questionar as
estruturas políticas de seus municípios.
Enfim,
cá estou condenado a esperança!!!
Clique aqui e confira o início desta série de textos em homenagem aos 60 anos de emancipação política de Altaneira.
Clique aqui e confira o início desta série de textos em homenagem aos 60 anos de emancipação política de Altaneira.
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Nicolau
Neto
é professor; palestrante na área da Educação com temas relacionados a história
e cultura africana e afrodescendente, desigualdades raciais, preconceito
racial, diversidade e relações étnico-raciais; ativista dos direitos civis e
humanos das populações negras; membro do Grupo de Valorização Negra do Cariri
(Grunec); membro da Academia de Letras do Brasil/Seccional Araripe
(ALB/Araripe); servidor público no município de Altaneira, diretor
vice-presidente da Rádio Comunitária Altaneira FM e administrador/editor do
Blog Negro Nicolau (BNN).
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