quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Qual o custo da eliminação de uma liderança negra do cenário político institucional para a democracia?




E quem mudaria? Quem mudaria seria quem estivesse no sofrimento. Quem arreda a pedra não é aquele que sufoca o outro, mas justo aquele que sufocado está.  (Ensinamentos de Vó Rita, personagem do romance Becos da Memória de Conceição Evaristo)

No dia 23/07, foi publicada no portal do UOL uma entrevista com o pré-candidato Douglas Belchior, professor,  dirigente da UneAFRO Brasil, organização do movimento negro que, há 10 anos pelo menos, trabalha com educação popular e hoje conta com mais de 40 núcleos de base em funcionamento, fazendo formação política e fortalecendo as trajetórias educacionais de jovens negr@s e pobres nas mais diversas regiões periferizadas do Estado de São Paulo, a entrevista em questão tratava sobre política partidária, negritude, financiamento e distribuição de recursos em campanhas eleitorais.

Financiamento de campanha é, definitivamente, uma questão dura a ser enfrentada, calcanhar de Aquiles do sistema político brasileiro, muito já se debateu sobre a questão e poucas ações de modo a produzir avanços do ponto de vista democrático foram encaminhadas. A temática abordada na entrevista, justamente, tocou em uma das questões fundantes, muito cara à política brasileira, sobretudo nestes momentos de organização interna dos partidos tendo em vista o início do período eleitoral, qual seja, como os recursos do fundo partidário são distribuídos entre as candidaturas nas legendas partidárias.

O debate enunciado por Belchior, na entrevista, não nega um debate mais aprofundado a respeito de como se pensar um sistema eleitoral mais democrático, gastando menos dinheiro, sendo mais efetivo em comunicação de propostas do que em marketing pessoal levando em conta o fato de que, mesmo que seja do ponto de vista retórico, há um consenso  na sociedade brasileira sobre a necessidade de renovação de propostas que encaminham um projeto nacional e que tal empreita não pode prescindir de nov@s quadros e lideranças políticas.

Daí surge uma questão que se pressupunha capital para o campo progressista: como fortalecer lideranças políticas que representem a inovação do ponto de vista da representatividade e ao mesmo tempo estejam vinculadas a um tradição de luta social orgânica, quadros que performassem na disputa da política institucional os setores mais vulnerabilizados da sociedade brasileira nas suas formulações, conteúdos e métodos mesmo em um cenário adverso.

Cenário político esse que, de maneira sintética, poderia ser caracterizado pela principal liderança política popular brasileira presa sem nenhuma prova concreta que o condene; com apenas 45 dias oficiais de campanha eleitoral; com objetivas perseguições aos partidos do campo popular e os mais diversos expedientes mobilizados para se criminalizar a militância social; a ausência de interdição social dos discursos  de ódio sustentadores de considerações apressadas e simplórias do estado de coisas em que se vive aliado a compreensões politicas dos mais variados tons os quais perpassam o liberalismo econômico e o conservadorismo moral; e a descrença da população na política institucional de maneira geral.

Ingenuidade histórica acreditar que nesta conjuntura, preocupações tão importantes tal como democratizar a acesso da população negra, indígena, mulheres e LGBTs  aos poderes da política institucional centralizariam as agendas partidárias a ponto de os partidos políticos se debruçarem por sobre os seus funcionamentos e repensassem os mecanismos viciados de distribuição de recursos internos para fazer, inclusive, com que as representações das populações mais vulnerabilizadas da sociedade brasileira obtivessem estruturas suficiente para realizar, no âmbito da política eleitoral,  o potencial pleno das experiências acumuladas em mais de 300 anos de sujeição e luta para garantir vidas historicamente sufocadas.

Lamentavelmente, neste momento singular de reorganização histórica do campo progressista, após um golpe institucional que parece não cessar nunca, a necessidade premente de se discutir uma proposta alternativa, progressista e que se centralize à partir da garantia da vida, um dos principais instrumentos estratégicos desse período, o PSOL não ter a grandeza política e a generosidade revolucionária necessária para suportar os questionamentos, que não dizem respeito apenas a ele próprio, muito embora Douglas Belchior cerre fileiras neste partido, ampliar o debate, rever posicionamentos e abrir mão do papel histórico, transformador da política nacional, que lhe caberia.

O que se viu no último período, em particular nas redes sociais, foram exemplos cabais de tentativas de desconstrução da legitimidade de uma liderança social do movimento negro com 20 anos de história de luta,  que entre tantas outras que poderiam estar na disputa, foi uma das que resistiu e sempre vocalizou a denúncia, a  construção e as proposições das  formulações construídas por forças políticas negras.

Uma das perversidades do racismo contra negros é considerar pessoas negras menos inteligentes, pouco afeitas aos pensamento lógico racional e incapazes de formulações políticas, quando observamos  a maneira pouco digna pela qual o debate enunciado por Belchior percorreu, no sentido de potencializar desqualificações metodológicas e, como bem considerou a advogada e militante do Movimento Negro Beatriz Lourenço, ausente de coragem em não enfrentar o mérito da questão, demonstra de maneira exemplar como o racismo opera no jogo político-narrativo nos partidos.


A título de exemplo do que ocorreu na última semana, no intuito de materializar, exatamente, o expediente racista dessa política-narrativa é possível destacar a maneira pouco honesta com a qual o professor Maringoni, militante histórico da esquerda brasileira, filiado e com atuação de revelo no PSOL, tentou encaminhar o debate.

Como pode ser observado no post, o intelectual demonstrou a sua pouca sensibilidade e compreensão da complexidade da sociedade brasileira e  de como o racismo é um força promotora de morte. No intuito de desqualificar Belchior e o trabalho da UneAFRO- Brasil que, por meio de um edital público promovido por uma organização internacional, conquistou a possibilidade  de receber recursos para custear algumas atividades destinadas a estudantes negr@s e pobres como transporte e lanche, além de recursos mínimos para o funcionamento de uma secretaria diminuta, que causaria espanto se comparado a qualquer grande ONG financiada pelas mesmos tipos de instituições, as quais tem em seus conselhos intelectuais renomados, via de regra, brancos, ligados a instituições públicas de ensino e pesquisa, que constroem suas respectivas carreiras acadêmicas teorizando muito de como o mundo deve vir-a-ser, por vezes, engajados em partidos políticos e com gordurosos pró-labores, mas pouco sensíveis e incapazes de traduzir o sofrimento do povo em proposições políticas  efetivas e que superem os sofrimentos destas coletividades; boa parte das vezes, distanciados e pouco sensíveis do cotidiano subalternizado da vida.

Esse episódio da vida pública nacional, também, demonstrou, enquanto sociedade, nossa pouca compreensão histórica da política brasileira, nossa pouca atenção ou talvez, interesse em aprender com os erros passados.  Como se sabe, a memória de uma sociedade é muito mais aquilo que se narra, os motivos que foram relevantes para se escolher os fatos que foram narrados e as forças sociais que legitimam a narração. Cabe, portanto aqui, um esforço de recontar um passado recente, momentos iniciais de disputa interna do campo democrático e construção da Nova Republica que, costumeiramente, foi deixada ao lado, porém, sempre que possível retomada pelo Movimento Negro.



Lélia Gonzales, uma mulher negra resistente, uma das militantes de maior expressão do movimento negro dos anos 80, filiada ao PT desde 81, em 1985, entregou sua carta de desfiliação, tendo como um dos argumentos centrais o fato do partido, mesmo tendo em suas fileiras homens e mulheres negras alinhados com a estratégia, suas formulações e protagonismo nunca eram centralizadores do processo político do partido mais popular da história do Brasil, escreveu:

Afinal, foi graças ao PT (às suas propostas) que me decidi a entrar na vida político-partidária, acreditando na possibilidade de inovação dentro da mesma. Disso, não poderei me esquecer; embora sabendo que os caminhos são tortuosos e que a luta não pode deixar de continuar junto com e em favor dos explorados, oprimidos, discriminados e que a luta não pode deixar de continuar junto com e em favor dos explorados, oprimidos, discriminados. Com respeito de sempre, as saudações cordiais de quem sempre buscou estar nas lutas dos discriminados. (GONZALES, Lélia. 1985)

É chegada a hora do campo progressista, dos partidos políticos de esquerda observarem o seu passado recente, reconhecerem que os erros históricos não são prerrogativas exclusiva do governo Lula ou a sua adesão a um projeto nacional Neo-desenvolvimentista; enfrentar suas singulares  dificuldades em reconhecer o RACISMO e o PATRIARCADO como forças construtoras das desigualdades nacionais e que impõe suas dinâmicas às CLASSES SOCIAIS;  que um projeto alternativo de soberania nacional, geração e distribuição de riquezas só faz sentido se a garantia da vida de todas as pessoas for o fim; que há de se ter coragem para enfrentar e criar estratégias que incidam sobre os poderes internos aos partidos de forma a construir mecanismo para que os militantes da base, @s negros, as mulheres, @s LGBTs sejam reconhecidos como formuladores políticos legítimos, não apenas operadores da política;  e que o reconhecimento de tal legitimidade se dá, inclusive, não apenas, por meio de condições estruturais de promover os debates, as proposições, as lideranças e, por que não, estrutura robusta para se participar do processo eleitoral; reconhecer que não é possível assumir o erro histórico, como acontecera no passado, de tornar insustentáveis a permanência de lideranças negras, mulheres, LGBTs dos partidos, das organizações e coletivos dos movimento sociais.

O preço do não enfrentamento radical ao racismo pelos partidos de esquerda foi: por mais de trinta anos o sufocamento de um debate progressista sobre a garantia da vida e segurança pública no Brasil, o que resultou nos mais de 60 mil homicídios anuais que a sociedade brasileira tem de conviver e fazem de nosso país apenas um ensaio débil de uma pretensa e frágil democracia.

Por todas as pessoas que foram sequestradas do continente africano e morreram na travessia do Atlântico.

Por todas as pessoas que aqui chegaram e foram forçadas ao trabalho compulsório;

Por todas as pessoas que sofreram as torturas dos corpos e das almas;

Por todas as mulheres negras e indígenas estupradas;

Por todas as crianças forçadas ao trabalho para sobreviver;

Por todas as mães dos filhos mortos pelo Estado;

Por todas as mulheres negras que sofrem violência doméstica e no parto;

Por todas as pessoas presas que foram impossibilitadas de construir caminhos para a vida distante do cárcere;

Pelo direito à vida livre das amarras do racismo, do patriarcado, da lgbtfobia e do capital;

Por tod@s os povos colonizad@s do mundo;

Por Zumbi dos Palmares, Dandara de Palmares, Maria Firmina dos Reis, Cruz e Souza, Lima Barreto, Antônio Conselheiro, Mariguella, Oswaldão, Helenira Rezende, Dadá (Maria Sérgia), Carolina Maria de Jesus, Guerreiro Ramos, Luana Barbosa, Matheusa, Amarildo, Marcos Vinícios, Lélia Gonzales, Beatriz do Nascimento, Clóvis Moura, Abdias do Nascimento, Milton Santos, Eduardo Oliveira, Amilton Cardoso, Virgínia Bicudo, Neusa Santos, Sabotage, Marielle Franco  e tant@s outr@s. (Por Adriana de Cássia Moreira, no Negro Belchior).

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