terça-feira, 3 de abril de 2018

Um dos maiores fracassos do cristianismo foi ter transformado o sujeito histórico Jesus em um mito, diz professor Tolovi



O Blog Negro Nicolau (BNN) reproduziu na manhã desta terça-feira, 03/04, artigo do frade italiano Alberto Maggi, um dos os maiores biblistas vivos acerca da morte de Jesus Cristo, símbolo da religiosidade cristã.

No texto que teve a tradução do biblista brasileiro padre Francisco Cornélio, Maggi demole duas ideias que estão na base do cristianismo falsificado que os integristas sustentam há séculos, a saber: I - Jesus teria sido morto “pelos nossos pecados” e II - essa seria “a vontade de Deus” e tendo por base essas possibilidades que, para a grande maioria dos fieis passou a ter status de dogmas, o frade italiano propõe, ao analisar o próprio texto bíblico que não morreu pelos “nossos pecados” e sim por enfrentar o sistema e reitera ao argumentar “que Jesus morreu porque confrontou o Templo, um sistema de dominação e exploração dos pobres de Israel”.

Clique aqui e confira as ideias de Alberto Maggi que foi publicado em primeira mão no site Outras Palavras.

Vinicius Freire. (Foto: Nicolau Neto).
A redação do BNN entrou em contato com três especialistas no assunto – os professores Carlos Alberto Tolovi, Jair Rodrigues e Vinícius Freire – para saber suas versões sobre o posicionamento em destaque.

Vinícius Freire, que também é líder do Ministério Nissi em Altaneira, realçou que o tema é complexo, porém concordou em partes com as colocações de Maggi. Segundo ele, “Jesus foi perseguido por combater todo um sistema que existia na época” e que o texto “não tem a intenção de negar o sacrifício de cristo, mas sim, de combater a religiosidade, sobretudo os lucros que a religião gera”. Mas o líder nissiano também não nega que Cristo tenha morrido “pelos nossos pecados”.

Negar que Jesus morreu pelos pecados é negar toda a bíblia, desde as profecias do antigo testamento, até a pregação apostólica contida no novo e também os evangelhos, uma vez que o próprio Jesus faz menção à sua morte em passagens dos mesmos, mas entendo que o texto contextualiza a perseguição farisaica contra Jesus, a partir do momento em que a pregação dEle confrontava os fariseus e toda a estrutura religiosa e até social da época”, pontuou Vinícius.

Já o professor da URCA Carlos Tolovi foi enfático. “Texto muito bem elaborado. Com o qual concordo plenamente”, disse inicialmente. E aprofundou as ideias do frade ao mencionar que “um dos maiores fracassos do cristianismo do ponto de vista de sua contribuição para a construção de um mundo mais justo e solidário foi ter transformado o sujeito histórico Jesus, um sábio revolucionário, em um mito, para dar sustentação à uma moral colonialista”.

Tolovi - que é doutor em Ciências da Religião pela PUC – SP -, explica como se deu o que ele chama de “o mito do CRISTO”:

Professor Tolovi. (Foto: Reprodução/ WhatsApp).
Aquele que foi crucificado por vontade de Deus e por necessidade dos homens e mulheres em sua busca da salvação”, realça. Ele argumenta que essa narrativa não tem fundamentação ética, mas possui sustentação moral.

Para ele, essa é “uma forma de os seres humanos se utilizarem de um evento histórico revolucionário para elaborarem uma narrativa que sustenta a submissão e legitimação de relações de dominação em nome de Deus. Com isso o cristianismo, em grande parte, passou a adorar o 'deus da moral' constituída pelos valores dos colonizadores”.

Ainda no campo da moral e da ética, o professor universitário ressaltou que “dizer que Jesus sabia que deveria morrer daquela forma por vontade de Deus é tirar do mesmo a dimensão da ética”.  Afinal, ele não teria escolha e, portanto, mérito algum”, frisou.

Para Tolovi, é preciso entender Jesus pelo lado social e como personagem histórico que não só lutou contra um sistema de opressão, mas que buscou a transformação da realidade. “Ignorar que Jesus foi assassinado em nome de um deus que legitimava um sistema de dominação é querer desvincular Jesus dos movimentos revolucionários que buscam a transformação da realidade tendo em vista uma relação de equidade”, finalizou.

Até o fechamento deste artigo o professor e psicólogo juazeirense Jair Rodrigues ainda não havia se manifestado.
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Vinícius Freire tem graduação com licenciatura plena em História pela URCA (2011), servidor público no município de Altaneira e líder do Ministério Nissi.

Carlos Alberto Tolovi Possui graduação em Filosofia pela Universidade São Francisco - USF (1991), graduação em Teologia pelo Instituto Teológico São Paulo - ITESP (1995) e mestrado em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC (1998). Doutor em Ciências da Religião pela PUC - SP (2016). É professor de Filosofia na Universidade Regional do Cariri - URCA - CE, lotado no Departamento de Ciências Sociais. É diretor presidente da Fundação Arca e coordena o programa de extensão firmado entre a URCA e a ARCA (em Altaneira - CE). Autor do livro: "Mito, Religião e Política - Padre Cícero e Juazeiro do Norte". (Informações colhidas junto ao Lattes).


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