08 abril 2017

Debate: Historiador ou professor de História?


Renato Janine Ribeiro disse hj: "Quem é da área de Filosofia raras vezes chama os colegas de filósofos e não se autodenomina filósofo. O mais frequente é nos dizermos professores ou pesquisadores de filosofia".

Antonio Celso Ferreira, em seu perfil - Concordo muito com ele. Os profissionais de História da minha geração também tem pudores em se autodenominarem "historiadores". Mas isso se tornou corriqueiro nesta última década, o que sempre me causou certo incômodo.

Fui acostumado a pensar que "Historiador" é um reconhecimento dado pelos leitores ou pelos nossos pares como resultado de uma obra de vida e que deve ser usado com muito comedimento.

Antonio Celso Ferreira. Foto: Perfil/Facebook.
Nem todo mundo é historiador ou se torna historiador. Somos, antes de tudo, professores de História e não há nada de mal ou desprestígio nisso. O título de "historiador" é como o de "escritor", "romancista" ou "artista". Para mim, só é historiador aquele cuja obra é assimilada pela historiografia como uma contribuição que perpassa o tempo. Geralmente os historiadores, assim como os filósofos, só são reconhecidos pela posteridade.

Da mesma forma não gosto de usar o título de Doutor. É um falso orgulho. Aprendi que outros até podem nos chamar dessa forma, nunca nós mesmos.

Por essa razão, não gostei e não apoiei a luta da Anpuh pela profissionalização do historiador. Tanto em razão do que eu disse acima, quanto pelo fato de que já considerava uma luta perdida. Despolitizada e vã. Esse talvez seja o maior erro da Anpuh, além do fato de ter se tornado um apêndice da CapesTalista.

O que adianta ser chamado de "historiador" quando qualquer um pode ser "notório saber"?
Trata-se de equívoco de natureza corporativa e que ilude os alunos. Atualmente, até alunos de primeiro ano se consideram historiadores, quanto mais inúmeras nulidades que conseguiram seus diplomas de doutor ou pós.docs (uma praga) sem dar alguma contribuição significativa ao conhecimento.

A derrota das ilusões dessas duas últimas décadas de carreirismo e produtivismo inútil nos deve levar à reflexão.

O que significa essa mania de todos se considerarem historiadores? Equivale à mesma ilusão de ascensão das classes populares às classes médias pelo consumo. A mesma expressão da (Teo)Ideologia da Prosperidade Evanjegue-Petista. Um falso trunfo. Um desprezo pelo magistério. Uma expressão de reacionarismo. Todos serão professores. Não há lugar para historiadores.

Historiador não é profissão.

Não, não somos historiadores. Isso é pretensão. Pedantismo. É fake. Como os pobres que querem se autoafirmar copiando máscaras da classe dominante.

Só o tempo dirá quem são os historiadores da nossa época.

Mas seremos todos professores de História com orgulho. Apesar de muito provavelmente terceirizados.

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