26 novembro 2016

Porque negros(as) admiram Fidel Castro?, por Douglas Belchior



Com a morte de Fidel Castro e a comoção da maior parte daqueles que se dedicam a luta social pelo mundo afora, alguns grupos e personalidades negras questionam o porquê de negros "idolatrarem" Fidel e seu regime "racista".

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Respeito os que criticam, mas preciso discordar e o faço com muita força. Reconheço que esse debate é complexo. Mas preciso dizer que não se trata apenas de "muita gente do movimento negro" idolatrar Fidel, mas sim de movimentos, organizações e personalidades negras de todo planeta reconhecerem o importante papel histórico de Fidel enquanto liderança que se contrapôs ao status quo mundial. Há controvérsias em sua atuação? Sem dúvida! Cuba pós revoluçao se curou do racismo? Evidente que não. Experiência essa que nos ajudou a forjar a ideia de que a revolução necessária está muito além de econômica, em especial nos aspectos de raca, genero, questoes religiosas e sexuais. Roberto Trindade, negro brasileiro que viveu 7 anos e se formou médico na Ilha nos relata:

"Em Cuba o racismo existe sim, mas não é um racismo institucional, como estamos "acostumados". É fruto de uma herança cultural de países escravocratas. Posso exemplificar com a ideia de que os santiagueros (Santiago de Cuba tem a maioria de sua população negra) são burros!!! Realmente a revolução não conseguiu desconstruir essa ideia vinda desde os tempos da colônia e essa persiste e se propaga nas "piadas", "ditados populares" e etc. Em Cuba os negros vivem melhor que em qualquer outro lugar previamente escravocrata. Existem as mesmas oportunidades e possibilidades, algo que pode parecer difícil de entender após eu confirmar que há racismo na Ilha. A revolução, plurirracial e de caráter nacional por si só já não permitiria que o racismo persistisse entre as esferas do governo".

Pra mim, particularmente, seria suficiente para admirar Fidel e sua obra uma atuação em especial Milito no mivimento de Cursinhos há quase 20 anos. Nesse período trabalhei em processos de seleção de jovens negros para fazer medicina em Cuba. Esse programa durou muitos anos e formou centenas de brasileiros latino americanos e africanos negros e pobres. Arrisco dizer que enquanto o programa durou, entre seu início e os primeiros resultados das políticas de acesse do governo Lula, Cuba formou mais negros brasileiros como médicos do que todas as universidades públicas do Brasil no mesmo período. Cleber Da Costa Firmino e José Cícero Da Silva e Roberto Trindade - que nos fez o relato acima - viveram lá, se formaram médicos e podem nos ajudar no debate.

É justo tbm lembrar o papel de Cuba e Fidel, no apoio a luta por libertação e independência de diversos países africanos frente a opressão colonial européia. Guevara, outro líder da revolução cubana, antes de ser morto enquanto guerreava na Bolivia, esteve a frente com seu batalhao cubana na guerrilha em Luta pela libertação do Congo.

Argélia foi apoiada em 1961. Enquanto lutava contra o colonialismo francês, Fidel Castro, a pedido da Frente de Libertação Nacional e fez chegar armas aos independentistas. Apoiou a luta contra o Apartheid e enviou cerca de 300.000 soldados a Angola entre 1975 e 1988 para fazer frente à agressão do exército supremacista da África do Sul. Em 1991, Nelson Mandela rendeu tributo a Fidel Castro: "Desde os seus dias iniciais, a Revolução Cubana tem sido uma fonte de inspiração para todos os povos amantes da liberdade. O povo cubano ocupa um lugar especial no coração dos povos da África."

Por fim, Sempre que sou provocado a falar de Cuba e de Fidel, deixo a seguinte pergunta, já respondida por Trindade, acima: seria exagero dizer que Cuba é o país em que os negros da Diáspora vivem melhor, em todo o mundo? Depois de uma rápida pesquisa nos índices de Desenvolvimento Humano e Desigualdades Sociais na Ilha, desde a revolução, eu arriscaria dizer que sim. Há teoricos que condenam a experiência Cubana? Sim. Mas eu prefiro ficar com a posição de Malcon X, Mandela, Ângela Davis e alguns outros dos Panteras Negras, pessoas com as quais sempre teve boa relação, e outros tantos revolucionários negras/os que o admiravam.

Fidel viverá para sempre!

Fidel Castro ao lado de Nelson Mandela e Ângela Davis - dois ícones na defesa
das causas negras. Montagem: Prof. Nicolau Neto.



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