18 novembro 2016

Mostra de Cinema Negro é adiada por acusações racistas e falta de representatividade


Cena do filme 'Raça' de Joelzito Araújo. Foto: Olhar Conceito.
Marcada para acontecer entre os dias 15 e 19 de novembro em Cuiabá, a “Liberdade: Mostra de Cinema Negro” foi adiada pela Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso (SEC) após acusação de falta de representatividade na organização e programação do evento, por parte de agentes culturais e do audiovisual de Cuiabá, e também de abordagem racista no material de divulgação. Durante reunião para deliberar os novos rumos da mostra no Palácio da Instrução na última sexta-feira (11), novas acusações de racismo, agressão verbal e nenhuma decisão quanto ao rumo do evento.
Publicado Originalmente no Ceert


A crítica inicial se dirigiu ao conteúdo da programação do evento, que apesar de ser uma mostra sobre o cinema negro, tinha em sua relação palestrantes, cineastas e demais convidados em maioria brancos. Além disso, foi duramente criticado os dizeres “deu branco” para referenciar parte da programação em que pessoas brancas eram destaque.



Outra reclamação dos agentes culturais e coletivos negros foi a de que apenas as ditas ‘panelinhas’ foram convocadas para opinar e auxiliar na organização do evento e que nenhum coletivo negro, que segundo eles teriam propriedade para abordar o assunto, foi convidado para participar. Dito isso, foi elaborado um documento justificando o repúdio ao evento com mais de 100 assinaturas.

A reivindicação feita por meio do facebook provocou a reação da SEC que emitiu uma nota oficial, convidando a sociedade civil para reunião no Palácio da Instrução na última sexta-feira (11), a fim de ouvir as reivindicações e ampliar o diálogo.

Segue nota:

COMUNICADO:

Em respeito aos agentes da classe artística e todas as entidades que lutam pela igualdade racial e de gênero neste Estado e também pelo reconhecimento dos questionamentos pertinentes à programação da Liberdade – Mostra de Cinema Negro, a Secretaria de Estado de Cultura resolve reprogramar as atividades do evento de modo colaborativo, mantendo a participação do cineasta Joelzito Araújo e do antropólogo Celso Prudente, além da exibição dos filmes dirigidos por Joelzito.

A medida visa ampliar o diálogo e o engajamento de toda a sociedade e especialmente para dar voz a todos aqueles que atuam em prol da visibilidade e valorização da identidade cultural da ancestralidade negra.

Deste modo, a secretaria convida para reunião nesta sexta-feira (11), às 19 horas, no auditório do Palácio da Instrução para colaboração na reestruturação da programação regional no que tange a debates, mediação e filmes a serem exibidos visando a ampliação da representatividade de produtores culturais, artistas e pensadores do movimento negro em Mato Grosso.

Após a reunião, em um desabafo, a coordenadora do Movimento Rota e produtora cultural em Cuiabá, Amanda Nery, que foi a reunião, publicou na página do evento no facebook um relato da situação de desrespeito e racismo, que segundo ela e testemunhas, vivenciou.

No texto ela destaca a ausência do secretário de cultura, Leandro Carvalho, que foi representado pela secretaria adjunta Regiane Marchieli e também uma agressão verbal e racista por parte de João Manteufel, que ela menciona como “responsável pela curadoria dos filmes e dono da empresa licitada para fazer a cobertura do evento”.


João Manteufel é sócio-diretor da empresa Donamaria Produções Criativas, contratada segundo ele para registro fotográfico e filmográfico do evento. João se pronunciou por meio de nota defendendo a programação inicial do evento e defendendo seus organizadores dizendo: “Temos raízes negras evidentes, vivendo no seio da cuiabania por gerações, fato que nos orgulha imensamente. Ademais, limitar a representatividade negra e reduzi-la dessa forma é discriminar às avessas todos aqueles que podem e devem dar uma contribuição relevante em matéria cultural, mesmo que não sejam negros. Trata-se de uma discussão ideológica pobre, maniqueísta que, no fundo, reflete o interesse comercial por um mercado fechado e excludente”.

Confira a nota de João Manteufel na íntegra:

A Secretaria de Estado de Cultura comunica que o evento “LIBERDADE: MOSTRA DE CINEMA NEGRO”, que seria realizado no período de 15 a 19/11/2016, será prorrogado para uma nova data, em razão da reorganização de sua programação proposta pelo movimento negro e agentes do setor do audiovisual em reunião aberta no dia 11/11. Informamos que a SEC continuará trabalhando de forma integrada com os segmentos envolvidos para a finalização da nova programação.

Acerca da suspensão do evento LIBERDADE – MOSTRA DE CINEMA NEGRO, a Donamaria Produções Criativas esclarece que nossa participação no evento limitava-se ao registro fotográfico e filmográfico do evento. Questões atinentes às escolhas de filmes, participantes e roteiro de palestras, competem exclusivamente à curadoria.

Lamentavelmente na reunião ocorrida no dia 11/nov, na sede do Palácio da Instrução, os colaboradores da Pasta foram hostilizados a ponto de serem obrigados a se retirarem do local.

Lamentamos pelo curador Dioney Garrijo que também foi agredido com uma profunda falta de respeito. O evento demanda divulgação do ciclo de palestras e vídeos que compreendem planejamento. Por mais democrática que tenha sido a montagem do programa, sugestões de última hora prejudicaram o fechamento do material finalizado.

Quanto às colocações realizadas na reunião, reputamos como infelizes: a identidade negra, com sua riqueza, singularidade, diversidade, está muito bem representada pelo programa proposto. A acusação de que os organizadores “não são negros o suficiente” ou “não há negros na direção” para planejar e executar o evento é, não só infeliz, como preconceituosa. Temos raízes negras evidentes, vivendo no seio da cuiabania por gerações, fato que nos orgulha imensamente.

Ademais, limitar a representatividade negra e reduzi-la dessa forma é discriminar às avessas todos aqueles que podem e devem dar uma contribuição relevante em matéria cultural, mesmo que não sejam negros. Trata-se de uma discussão ideológica pobre, maniqueísta que, no fundo, reflete o interesse comercial por um mercado fechado e excludente.

Ofensas pessoais e ao trabalho profissional desenvolvido pela produtora não passarão incólumes. Serão objeto de ação própria na esfera cível e criminal.

Não aceitamos a formação de “nichos de mercado”. As propostas públicas de um governo transparente devem oportunizar a participação de todos, indistintamente, sob pena de se dar o racismo às avessas. O único critério que deve nortear qualquer produção pública é o talento como o curador tem demonstrado.

Esperamos da SEC-MT a manutenção da programação, em respeito aos organizadores, colaboradores e o povo mato-grossense interessado em conhecer e divulgar a cultura e identidade negra que marca profunda e positivamente o Estado de Mato Grosso.

A mostra de cinema negro é uma iniciativa da Secretaria de Cultura que precisa ser apoiada e aplaudida por toda a comunidade cultural e pelo público de cinema.

João Manteufel

Sócio-diretor da Donamaria Produções Criativas

Após tal ocorrido, a SEC se pronunciou cancelando o evento temporariamente:

COMUNICADO

A Secretaria de Estado de Cultura comunica que o evento “LIBERDADE: MOSTRA DE CINEMA NEGRO”, que seria realizado no período de 15 a 19/11/2016, será PRORROGADO para uma nova data, em razão da reorganização de sua programação proposta pelo movimento negro e agentes do setor do audiovisual em reunião aberta no dia 11/11. Informamos que a SEC continuará trabalhando de forma integrada com os segmentos envolvidos para a finalização da nova programação. Logo será divulgada a nova data.

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