09 setembro 2016

Entre a direita e a esquerda, sou preto… de esquerda


Existem militantes que costumam vir com esta idéia: que a luta contra o racismo transcende o campo ideológico. Que ser negra ou negro está acima das ideologias. Realmente a identidade racial está acima. Porém, a luta contra o racismo não. Lutar contra o racismo é necessariamente estar no campo da esquerda.
Por Dennis Oliveira no Portal Fórum
Por que isto?

Porque ser de direita é estar ao lado do capital. E o projeto político do capital, a nível mundial, hoje, é a da total desregulamentação – das relações trabalhistas, dos fluxos de capital, das normatizações sociais. É impor um ordenamento jurídico baseado no primado do contrato civil privado sobre o direito público, coletivo.

O projeto do capital é assim não por uma “desfaçatez” ética dos detentores do capital. Mas porque as formas de acumulação do capital atuais exigem isto. O capital se organiza por uma rede global de células produtivas espalhadas em todo o planeta. Na cabeça, estão os centros gerenciadores e tecnológicos, que geram os empregos mais qualificados, melhor remunerados. Estes centros estão localizados nos países mais desenvolvidos. Logo abaixo, estão espalhados as células manufatureiras, com distintos níveis de sofisticação tecnológicas e, portanto, com diferentes qualidades de trabalho e emprego, inclusive em termos de remuneração. E na base os centros fornecedores de matéria prima, com as condições mais degradantes de trabalho. Estas são as periferias do capitalismo, os países “subdesenvolvidos” ou “de médio desenvolvimento”.

Para que isto funcione, é preciso que se quebre toda e qualquer barreira ou norma protecionista ou regulatória. O capital precisa de livre acesso. As normas são estabelecidas diretamente pelos seus agentes, as grandes corporações. É a Ação Direta do Capital. Ser de direita é estar ao lado deste projeto. É esta a natureza do governo golpista de Temer.
Pergunto: qual é a possibilidade de países com população negra, todos eles na periferia do capitalismo, superarem o racismo mantendo economias subordinadas ao grande capital centrado nos países de população branca?

No campo da esquerda, os projetos vão no sentido de resistir a esta Ação Direta do Capital. E aí há um amplo leque de projetos de resistência, desde propostas neodesenvolvimentistas até mais avançados com perspectiva socialista.

O projeto neodesenvolvimentista tem seus limites. É um projeto capitalista, entretanto contradiz com o do capital global. Isto porque reivindica um lugar diferente do estabelecido na divisão internacional do trabalho para os países subdesenvolvidos. Reivindica que estes países também desenvolvam uma economia avançada, com produção tecnológica e que, portanto, gere empregos com maior qualificação – e que, necessariamente, exige investimentos na formação educacional, entre outros. E também um mercado consumidor interno forte – que, por sua vez, é construído por aumento do poder de compra da classe trabalhadora.

Este foi a tônica dos governos da era Lula/Dilma.

Ora, é evidente que em um projeto como este, as condições para a luta contra o racismo são muito mais favoráveis que no projeto da direita.

A experiência histórica mostra isto. As políticas de inclusão racial avançam mais em situações em que se desenvolvem projetos de desenvolvimento. As ações afirmativas nos EUA, por exemplo, desenvolveram-se em um contexto de grande crescimento do capitalismo estadunidense.

Isto não significa que basta isto para se resolver o racismo. Evidente que não. Dentro destas condições objetivas mais favoráveis, é preciso que se fortaleça o movimento antirracista para aproveitar o momento e pressionar pelas políticas públicas de combate ao racismo. A estrada está bem pavimentada, mas é preciso saber conduzir bem o carro.

Dizer que esquerda e direita é a mesma coisa para a luta contra o racismo porque ambos são dirigidos por brancos e pouco espaço dão para negras e negros é uma tremenda obtusidade. Limitar a luta contra o racismo ao espaço dado por dirigentes de siglas partidárias é miopia. É transformar um dos aspectos do racismo (o pequeno espaço) em totalidade do racismo (que vai muito além disto).

Não há como qualquer militante do movimento negro não se posicionar contra o golpe de direita que se realizou no país.


Por isto, reafirmo: entre direita e esquerda, sou preto de esquerda, porque combato o racismo. E combater o racismo é ser de esquerda.


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