25 abril 2016

O golpe escarrado e cuspido na cara da nação, por Nêggo Tom




É triste constatar que o respeito à pessoa e as opiniões esteja cada vez mais limitado. A crise que o país atravessa, motivada por uma disputa política e partidária, tem feito muitos reféns, e esses se encontram em um cativeiro de ignorância, falta de bom senso e alto grau de presunção. Assim como na síndrome de Estocolmo, onde a vítima é submetida há um tempo prolongado de intimidação e passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor, a síndrome do golpe faz com que o psicológico das vítimas apresente características bem parecidas. A diferença é que na segunda patologia, não existem vítimas e nem intimidação, mas sim voluntários, que através de identificação espontânea e ideológica, legitimam a ação de seus “sequestradores”.

Políticos, artistas e outras personalidades que se posicionam a favor do governo e contrários ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, vêm sofrendo agressões morais e ataques pessoais sejam esses nas redes sociais ou em lugares públicos. O caso mais recente envolve o ator José de Abreu, petista e defensor ferrenho do atual governo, que juntamente com a sua esposa foi agredido com ofensas morais em um restaurante em São Paulo. Entre os xingamentos, os já conhecidos clichês, vagabundo, ladrão e comunista. Na síndrome do golpe a vítima não raciocina por si mesma, ela já entregou o próprio cérebro, por identificação e convicção, ao seu sequestrador ideológico. É ele quem manipula as suas ações e os seus sentimentos menos nobres, aqueles que já estavam dentro dela esperando alguma motivação para sair do armário.

Tenho absoluta certeza que José de Abreu não foi até a mesa do casal para chamá-los de “coxinhas” ou de golpistas, mas tenho a mesma certeza de que o casal de anônimos, ao vê-lo no recinto, quis fazer o seu papel de “cidadãos de bem” que costumam enquadrar todo e qualquer petista, ou defensor do governo, para chama-lo de vagabundo e manda-lo ir pra Cuba. Assim já fizeram com Chico Buarque e com outros artistas que se posicionam abertamente a favor do PT. Os caras provocam. Querem impor a sua arrogância a todo custo, como se apenas existisse vida inteligente e útil do lado direito da política nacional e nas rodas de carteado e pôquer dos cassinos clandestinos existentes no submundo da elite absolutista. Chamam de vagabundo e de ladrão quem apoia o governo, mas se levarmos em conta que Dilma teve mais de 54 milhões de votos, será que podemos considerar o mesmo quociente para calcular o número de vagabundos e ladrões existentes no país?

José de Abreu revidou as agressões cuspindo no rosto do casal, assim como o deputado Jean Willys já havia feito com Jair Bolsonaro em pleno congresso nacional durante a votação do processo de admissibilidade do impeachment. Em minha opinião, cuspir no rosto de alguém está errado. É uma atitude reprovável e baixa demais. Mas também entendo que ofender moralmente as pessoas em locais públicos, por diferenças políticas, é igualmente reprovável e tão baixo quanto. Democracia é saber respeitar as opiniões que nos sejam contrárias. Ninguém é dono da verdade, até porque a verdade é uma só e não se deixa corromper pela pretensão de alguns "cidadãos de bem" que querem tomar posse dela de maneira absoluta e inconsequente. Nenhuma forma de radicalismo tem parentesco com a verdade e favorece o bem comum. Essa generalização que vem sendo aplicada contra quem se opõe a direita é puro fascismo e precisa ser combatida. Não a cusparadas, mas de forma judicial, ou na pior das hipóteses, em vias de fato, se for necessário.

É irracional e inconsequente acusar de banditismo quem segue uma ideologia política contrária a nossa. Tomamos para si uma ideologia ou uma posição política por inúmeros motivos. Eu não sou filiado ao PT, mas sou contra o impeachment, pois acho que é golpe. As minhas convicções políticas me levam a essa opinião. E daí? Você pode ter a Amy Winehouse como ídolo e nem por isso querer se consumir em drogas como ela. Ou não seria inconsequente apontar como torturadores, todos que declaram apoio ao deputado Jair Bolsonaro? Seria racional julgar como estelionatários e charlatões todos os que congregam sob a doutrina de Marco Feliciano e Silas Malafaia? Seria correto rotular como traidores e indignos de confiança todos os cidadãos que apoiam um possível governo Temer? Podemos classificar como Psicopatas todos aqueles que adotaram Eduardo Cunha como o seu malvado favorito?

Existem erros no PT, da mesma forma que existe no PSDB, no PMDB, no DEM, no PSB, no PTB e em todos os partidos. Aliás, já está mais do que provado que os partidos com o maior número de políticos envolvidos em corrupção são o PSDB, DEM e PMDB e nem por isso os falsos moralistas e coxinhas indignados abandonam a simpatia por essas siglas e muito menos exigem, com o mesmo rigor que exige para o PT, uma punição para eles. Tanto é que entrega em suas mãos a esperança de um Brasil melhor. Melhor para eles, é claro. Um Brasil que volte a ser escravocrata com a flexibilização das leis trabalhistas e com a terceirização. Um Brasil que volte a ser totalitarista, tendo o pobre como servo do estado e da elite dominante. Um Brasil que volte a ser deles, para eles, como eles quiserem e onde a onipotência, a onipresença e a onisciência da nossa direita elitista, determine, em nome de Deus, o destino do restante da nação.

Não nos cuspirão!

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