20 abril 2016

A estética dos corpos negros pela lente de um jovem fotógrafo



Nascido em Recanto, cidade satélite de Brasília, o jovem Luiz H. Ferreira de 20 anos é apaixonado por fotografia e desde cedo nutre o sonho de clicar a cultura e estética dos corpos negros. O estudante de comunicação visual é parte de uma geração de brasileiros e brasileiras que hoje podem enxergar o acesso à universidade uma realidade mais próxima, pois nos últimos 10 anos o número de negros no ensino superior aumentou 230% em comparação entre 2000 e 2010.

Desde criança me interesso por fotografia e arte, mas nunca soube bem o que eram, pois não tinha acesso. A primeira relação que tive com fotografia foi em família, quando todos se reuniam para ver os álbuns e assim ficavam mais próximos, relembrando memórias afetivas. Eu vi a importância de registrar. Era apaixonado por fundo desfocado e a história que cada papel fotográfico trazia,” comenta em entrevista ao Afreaka.

Desiludido e certo de que a fotografia era um meio elitizado e fora do alcance de um menino nascido na periferia, Luiz quase desistiu de estudar e viver de arte. Entretanto, encontrou em um curso a possibilidade de dar o pontapé inicial para realização do sonho.

"Acho que política e estética negra nunca se desvinculam,
porque isso serve de referência para outras pessoas
se afirmarem". Foto: Luiz H.Ferreira/Divulgação.
 “Como fotografia é uma área bem elitizada, eu já tinha perdido a esperança de estudar, por terem cursos e equipamentos bem caros, tudo bem fora do orçamento da minha família, eu pensava que arte era coisa de rico, nunca que um menino pobre, do Recanto, conseguiria estudar e viver de arte. Com 17 anos tive a oportunidade de fazer uma oficina de fotografia gratuita de 3 meses com a Tatiana Reis, esse foi o pontapé inicial. A partir dessa base fui estudando e me encontrando na fotografia, conheci o mundo fotográfico, ocupei espaços que nunca imaginei, fui em festivais de música, exposições e comecei a estudar mais sobre a arte fotográfica. Entendi a minha história e colaborei para o protagonismo da juventude negra,” ressalta.

O interesse em retratar a estética negra e das periferias surgiu quando Luiz se reconheceu enquanto negro e partir daí descobriu as histórias de resistência de seus ancestrais. O exemplo ressalta a necessidade de um currículo escolar que exponha a realidade da cultura afro-brasileira e o laço que a conecta com a ancestralidade africana. Mesmo com a criação da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de África e da cultura negra do Brasil nas escolas, o afrodescendente e o continente africano ainda são tratados de forma estereotipada e sua trajetória se limita apenas ao período da escravidão, onde mesmo assim são analisados como figuras passivas.

No caminho contrário, Luiz expandiu seus objetivos profissionais e pessoais conhecendo outras versões de seu passado. Ao saber das histórias de negros e negras atuantes no campo da educação, política, literatura e artes, o jovem foi tomado por um orgulho de ser negro, combustível necessário para ensaios fotográficos repletos de homens e mulheres que em comum possuem o mesmo sentimento sobre sua cor e ancestralidade. “Eu me interessei por fotografia quando me afirmei enquanto negro e conheci a história de resistência dos meus ancestrais. Comecei a estudar mais sobre minha história e vi a ferida que a gente carrega desde a escravidão, sempre invisível e repleta de estereótipos negativos sobre nossa cor. Por isso, pra mim fotografar a cultura negra é continuar a nossa própria história. É para representar nossa geração. Com turbantes, tranças e resistência por meio da cultura periférica, que muitas vezes ficou invisível e vista como exótica, mostro os vínculos com África e a história de resistência. A fotografia é minha voz, nela posso criar personagens, mostrar lutas e histórias, posso representar e ser representado,” conclui.

Mas, Luiz não está sozinho, pois nos últimos anos assuntos relacionados com a cultura negra ganharam bastante visibilidade, penetrando em ambientes outrora inóspitos. Isso graças ao trabalho atuante de coletivos como o Manifesto Crespo, que alia educação e estética para falar sobre cabelo crespo e o Desabafo Social, espaço de discussão racial, de gênero, baseado nos direitos humanos, entre outros frutos do levante contra os padrões estabelecidos há séculos por aqui. Como era esperado, a visibilidade de assuntos e movimentos negros chamou a atenção dos veículos de comunicação e hoje em dia não é difícil acompanhar programas de TV ensinando amarrações de turbantes, expondo cantores e cantoras e jovens com seus cabelos black power. Mas onde fica a discussão sobre o racismo?

Muitos negros e negras enxergam o interesse dos grandes conglomerados de comunicação e da indústria, ambos em sua maioria dominados pela elite branca brasileira, apenas uma tentativa de gerar lucro e não de debater o cerne da questão: o racismo e a violência contra a população negra. Para Luiz, quando um adorno ou prática cultural dos afrodescendentes é embranquecido, suas chances de aceitação social aumentam. “Quando se trata de um negro usando os itens de sua própria cultura, ele é visto com um estereótipo negativo, como feio. Mas quando uma modelo não negra estampa a capa de uma revista de moda com os mesmos itens, é tendência. Eles não se preocupam com o contexto histórico, para eles o turbante, por exemplo, é parte da moda 2016 e logo vai passar. Pra nós é história, tem luta. Não passamos anos lutando para um estilista ditar moda se apropriando da nossa cultura,” enfatiza.

O fotógrafo brasiliense ressalta a importância de unir estética com política para que o negro possa decidir os rumos de sua história. “É preciso ter autonomia e um discurso sobre si. Acho que política e estética negra nunca se desvinculam, porque isso serve de referência para outras pessoas se afirmarem. Falamos de uma estética pouco aceita pela sociedade.”

Orgulhoso de sua negritude, Luiz H. Ferreira mostra que moda e consciência política e social podem sim andar juntas. Com seu olhar, o brasiliense questiona padrões de uma sociedade ainda dominada pelo racismo, ao mesmo tempo em que inspira a juventude negra do Brasil. Que exemplos como este sejam como dentes-de-leão e espalhem suas pétalas.

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