16 outubro 2015

Questão de gênero: A violência simbólica contra a mulher nas charges da Revista KodaK



Surgidas na Europa em meados do século XIX, as revistas ilustradas traziam assuntos os mais diversos, que vão da área científica a textos literários. A diversidade de informações, favorecida pelo preço acessível, fez com que esse estilo de periódico se popularizasse rapidamente, pois, diferentemente do jornal, as revistas ilustradas eram repletas de imagens e possuíam poucas páginas, sendo uma composição tecnicamente mais elaborada, com assuntos mais aprofundados. Podiam ser semanais, quinzenais, trimestrais, semestrais ou anuais.

Ao longo do tempo, as revistas ilustradas consolidaram-se “como ramo expressivo da imprensa” (MARTINS, 2001, p.39), disputando espaço com jornais, trazendo muito além de notícias sobre a sociedade, mas também estreitando a relação com o humor e a crítica incisiva sobre política.

No Brasil, a imprensa periódica ilustrada teve seu apogeu após enfrentar inúmeros problemas técnicos. Em um período em que a imprensa passava por um processo de renovação, interessada em formar padrões de conduta e comportamento, acompanhando os progressos das cidades e as mudanças na vida social e cultural dos cidadãos, elas proliferaram no Brasil como expressões mais apuradas de uma imprensa em processo desenvolvimento, interessada em transitar entre o local e o universal, abrindo-se às novas tendências comportamentais.

Em Porto Alegre, um marco na imprensa periódica ilustrada inaugurou uma fase completamente nova, com maior avanço técnico e autonomia comercial: a Revista KodaK, com seu mais completo acervo encontrado no Arquivo Histórico Regional em Passo Fundo no Rio Grande do Sul, contava com uma tiragem semanal de três a quatro mil exemplares, tendo sua primeira edição esgotada na data do seu lançamento em setembro de 1912.

A revista circulou entre os anos de 1912 a 1920/23 com períodos de interrupções. Foi a primeira revista a trazer uma grande quantidade de fotografias, conteúdos independentes, ilustrações e, com o passar do tempo, anúncios de publicidade. Direcionada a arte, a literatura, a vida social da população gaúcha.

Mas o que essa revista tem a ver com as mulheres?

Como Bourdieu ensina, a violência simbólica de gênero refere-se aos constrangimentos morais que as representações sociais de gênero impõem. Decorrente de uma sociedade historicamente machista e patriarcal, onde são comuns reproduções que disseminam tais representações, cuja principal característica consiste no constrangimento e na degradação da imagem da mulher.

A base da violência são as estruturas que defendem a ideia de superioridade masculina, mantendo-a viva e favorecendo a manutenção dessa cultura que, segundo Bourdieu (2007), encontra na própria sociedade condições para sua disseminação. Disso decorre a importância de problematizar a questão de gênero, bem como a história das mulheres numa perspectiva crítica, observando a sua reprodução e a violência simbólica reforçada por padrões patriarcais de conduta de gênero. Esses aspectos se relacionam ao domínio masculino quando se defrontam questões sobre autonomia de pensar e produzir intelectualmente de acordo com uma realidade desigual, que excluía as mulheres de uma condição material independente.

Nessas revistas através de algumas charges que foram publicadas na Revista KodaK nos anos de 1912 a 1919, escolhidas através de um levantamento em mais de 100 edições, pode-se verificar que tratam da questão da mulher e seu papel na sociedade. Apresenta-se, neste artigo, apenas a questão da violência simbólica de gênero em três charges dos anos de 1915 e 1918.

Fonte: Revista Kodak, ano III, n 113 de 09. jan. 1915.
Na primeira charge, a primeira vista, parecem ser apenas três cidadãos andando normalmente até que se vê a legenda da imagem que diz: “Elle (varado)” ao se referir ao homem reforça que ele estava atônito, completa: “Meu Deus, que perna!”. A mulher responde: “Ella (à parte) – Que estúpido! O algodão que puz (sic) dentro da meia é que m’a faz assim grossa…”.

Observa-se na imagem um forte desrespeito à mulher no espaço público, naturalizando uma violência que conhecemos hoje na linguagem popular como “cantada”, violência que configura, muitas vezes, o assédio moral e sexual, visto que não é respeitado o direito das mulheres de usar os espaços públicos sem sofrer constrangimentos com relação a sua aparência, corpo ou maneira de se vestir.

Fonte: Revista Kodak, ano III, n 44 de 15. jun.1918.
Na segunda charge, a imagem não explicita nenhum ato de violência até lermos a legenda que diz: “- Comadre Theresa, é verdade que teu marido, quando se zanga, para se conter, conta de um até 20?” Na resposta, o ato de violência contra a mulher fica claro: “É verdade, mas meu lombo é que lhe serve de marcador”.

Como sabemos a violência contra a mulher é um problema sério e universal. Só no Brasil são 5 casos a cada 2 minutos, o país é 7º no mundo com mais casos de violência contra a mulher. A mídia que transmite esse material em suas páginas reforça a violência de gênero, pois essa reproduz e ironiza uma situação de violência real e naturalizam uma cultura de discriminação contra as mulheres, tanto no âmbito público, como vemos na primeira charge, mas também no âmbito privado, em exemplo a essa e a charge a seguir.

Fonte Revista Kodak, ano III, n 43 de 08. jun. 1918.
Diferentemente das outras imagens, essa não explicita violência em falas escritas, mas sim na própria imagem, que retrata mais uma vez uma situação de violência real sendo ironizada pela legenda de “a via dolorosa de um homem”. A charge acaba por banalizar esse tipo de crime que é a morte da mulher resultante da violência que ela sofre, passando a ser algo, então, costumeiro.

Sendo assim, pode-se dizer que, de certo modo, a Revista KodaK contribuiu para a naturalização daquilo que Pierre Bourdieu chama de violência simbólica. O poder simbólico, segundo o próprio sociólogo, são estruturas estruturantes da sociedade que conduzem instrumentos de dominação, para legitimar o poder,“[…] é com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem”. (BOURDIEU,1998. p.7-8).

A violência simbólica não é simplesmente mais uma forma de reforçar a desigualdade entre os gêneros, mas também a legitimação das diferenças que ficam claras através das estruturas de poder, nesse caso, a imprensa periódica ilustrada gaúcha, a Revista KodaK.


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