21 setembro 2015

Uma análise da crise do Brasil: “Um incômodo diagnóstico”, por Carlos Alberto Tolovi*


Atualmente o brasileiro vem sendo provocado a discutir e opinar sobre a situação de crise do nosso país. Em momentos como esse os argumentos da grande maioria da população se constitui por meio das notícias veiculadas pela grande mídia nacional. O problema é que essa mesma mídia não é isenta como parece ser. Ela está envolvida no jogo e nas disputas de poder. Neste momento, o grande desafio consiste em conseguir olhar para além da “nuvem de fumaça” produzida pela grande mídia e reproduzida nas redes sociais e nos bate-papos das ruas, das esquinas, dos botecos, etc..

Na tentativa de identificarmos o contexto da crise a partir de uma visão mais ampla, queremos começar destacando três problemas de fundo:

A vitória da economia sobre a política
A vitória do mercado e do consumo sobre a ética
A vitória da alienação sobre o exercício da cidadania.

No primeiro caso, aquilo que estamos vendo na mídia todos os dias no Brasil é reflexo de um problema mundial que tem como base o sistema capitalista-neoliberal. Se por um lado a política deveria se definir como uma forma de organização e relação de poder tendo em vista o bem comum, por outro, (nesse sistema) a economia de mercado não se preocupa com a desigualdade social. O bem da economia está acima do bem de todos. A saúde da economia está acima da saúde do povo. Uma economia forte é mais importante que um povo forte.

A segunda situação é consequência da primeira. Mesmo porque, nesse sistema nós aprendemos que a medida do consumo é a medida da felicidade. Só quem pode consumir pode ser feliz. Sendo assim, a mercadoria se torna mais importante do que o sujeito que a produz. E, se a ética está situada no campo da reflexão e escolha livre, consciente e coerente, dentro do universo de corresponsabilidade nas relações humanas, nesse sistema ela fica completamente comprometida. Nesse universo, quem não produz e não consome atrapalha os produtores e consumidores. Portanto, poderiam deixar de existir. Não fariam nenhuma falta. Nesse contexto, a vítima é transformada em vilã. Não importa se não recebeu educação adequada, se não teve estrutura familiar, se não recebeu apoio nem oportunidades nos momentos decisivos de escolhas. De qualquer forma será visto como um derrotado e como um “peso morto” que os que produzem e consomem precisam carregar. E a lógica é perversa. O responsável pelas ações sociais que incluem os mais pobres é o Estado. Porém, os capitalistas defendem um “Estado Mínimo”, sem influência no mercado, com economia enxuta. E, para estes, gastar com quem não produz é desperdício de dinheiro e risco para a economia. Um sistema sem coração e sem ética.

Contudo, este sistema só pode se manter se receber uma aceitação coletiva. Mas, como a maioria do povo poderia aceitar um sistema tão perverso, que produz efeitos muito negativos para a maioria da população e para o meio ambiente (como podemos ver no mundo inteiro)? É muito simples: por meio de um processo de alienação. E sobre isso já falamos em outras reflexões. No sistema capitalista orientado pelo mercado a lógica de funcionamento é muito simples: a economia é o Deus. E todos precisam prestar culto à ela. O problema é que esse culto exige sacrifícios. E, problema maior ainda é que esse “Deus” só aceita um tipo de sangue: o humano. Mas ainda com um agravante: não pode ser qualquer humano, e sim aquele tipo que não possui poder de reação. Portanto, em tempos de crise, não se percebe a diminuição dos gastos do Palácio do Planalto, da câmara dos Deputados, do Senado, etc.. Também não se tem coragem de tomar o caminho de “taxar as grandes fortunas”. Aliás, onde foi parar a enorme lista de brasileiros com contas no exterior? Ah, é claro: havia muita gente da Globo nessa lista. Estes sabem como reagir e possuem meios para isso. Então, o que sobra? Cortar gastos da saúde, da educação, dos projetos sociais, etc..

Sendo assim, quem será, de fato, sacrificado? Quem ganha menos e quem consome mesmo. Estes são os que precisam da escola pública, da saúde pública, dos investimentos em projetos sociais.  Porém, o grande problema daqueles que possuem o poder de influenciar a mídia tendo em vista produzir uma imagem distorcida da realidade (ideologia negativa) são os mesmos que não se conformam com o fato de as últimas eleições serem decididas justamente pelos que sempre foram os mais marginalizados. Não porque eles ganharam consciência de cidadania da noite para o dia, mas porque sentiram os efeitos diretos de pequenos investimentos em projetos sociais que, mesmo com grandes problemas e com muitos erros, de certa maneira distribuía renda. Contudo, o mesmo sistema que tirou muita gente da miséria fez aumentar a classe média em nosso país. E essa classe média foi convencida de que o problema da crise está localizado no governo, no Estado e nos “pobres” que precisam dos projetos sociais. Sendo assim, a corrupção é vista apenas como sendo dentro do governo; os gastos desnecessários estão sendo feitos com quem não produz; e o Estado deveria abrir mão das maiores riquezas nacionais para o capital internacional. E nesse contexto a Petrobrás se tornou a grande referência em disputa.

Por outro lado, o governo, sabendo que o “Deus” capital é quem domina todas as formas mais importantes de poder, se corrompe para se manter com seu grupo e seus privilégios. Sendo assim, mesmo um partido popular – como era o PT – achou que deveria prestar culto à Deus e ao Diabo, cultuando “dois senhores”, e pensou que seria possível fazer isso sem ter de assumir as consequências dessa escolha contraditória. Com isso, cooptou as grandes lideranças dos movimentos sociais e sindicais colocando-os dentro do governo. Negociou com a extrema direita e se corrompeu na lógica do mercado dentro de um projeto de continuidade no poder.

E quais seriam as piores consequências desse triste quadro?

Os movimentos sociais e os sindicatos se enfraqueceram, porque passaram a fazer parte de um sistema e mecanismo de poder – ficou comprometida a concepção de “esquerda”.
Aos primeiros sinais de uma crise financeira o governo foi abandonado pelos seus aliados da “direita”. Não só abandonado, mas acusado como o único culpado. Aliás, com a descoberta do maior sistema de corrupção de nossa história, se descobriu também de que forma o governo conseguia vitórias no Congresso em meio à Deputados e Senadores corruptos.

Para sair da crise precisou lançar mão de medidas impopulares. O que facilitou a tarefa da mídia na construção de um “bode expiatório” e de um processo de alienação. Nesse contexto até a vítima ainda não percebeu que ela está sendo conduzida ao “matadouro” oferecendo poder aos que querem um sacrifício ainda maior. E a maioria passou a reproduzir o discurso dos seus “algozes” (carrascos).

Porém, aqueles que nós chamamos de “elite” dentro de um projeto de poder que privilegia apenas o mercado e não as pessoas e nem a ética, estão lutando para destruir o último sustentáculo de um governo que, apesar de cometer erros imperdoáveis, se diferenciou no investimento de projetos sociais: falta apenas sacrificar diretamente os que fizeram a diferença na disputa pelo poder – bolsa família, minha casa-minha vida, PROUNE, FIES, etc., etc..

Diante desse quadro, é praticamente certo um retrocesso do ponto de vista da política, da ética e da justiça social. Já temos um terreno completamente preparado para que o sistema de mercado volte a assumir seu império absoluto. Ao invés de corrigir os erros das estatais, evitando que sejam comandadas por indicações políticas, será melhor privatizá-las. Ao invés de votar a lei que torna crime hediondo a corrupção, é melhor afirmar que ela pertence à um só partido. Ao invés de mudar o sistema tributário, é melhor cobrar mais impostos. Ao invés de diminuir os privilégios dos políticos profissionais, é melhor aumenta-los para garantir a votação das leis necessárias para retomada da economia. Ao invés de diminuir os Ministérios, é melhor mantê-los como instrumento de barganha com os “Partidos aliados”. Ao invés de taxar as grandes fortunas, é melhor apertar o “cinto” dos mais pobres e taxar os setores produtivos. Ao invés de investir em projetos sociais, em saúde e educação, é melhor investir no fortalecimento da economia, levando em conta apenas quem é capaz de “aquecer” o mercado. Nesse sentido, a pergunta mais trágica não é a que a mídia está colocando todos os dias: “quem paga a conta”. A pergunta é: quem será abandonado ou será realmente sacrificado? Quem não paga plano de saúde, quem não tem seus filhos em Escolas particulares e pode pagar faculdade particular, quem não precisa dos benefícios do governo. Aliás, são estes que estão tirando hoje o governo do poder. E a maior acusação são os gastos do Estado e a corrupção da qual eles mesmos fazem parte elegendo e mantendo no poder políticos corruptos. Para se ter uma ideia, aqui em São Paulo, por exemplo, os Malufistas de “carteirinha” se tornaram militantes nas ruas gritando contra a corrupção do PT. E com eles estão os militantes do PSDB, do PMDB, do PPS, do PP, etc..

Bem, mas se hoje a “oposição” ao governo tem a maioria no Congresso, porque já não pediram o empeachment de Dilma?

Por dois motivos básicos – entre outros:

Ainda não “minaram” todas as bases de seu adversário. Não sangraram o suficiente para que ele não se recomponha. Se eles entrarem agora, assumindo o lugar de Dilma, e tiverem de retirar todos os benefícios dos pobres (como eles querem), perderão novamente as eleições no voto. Querem que, antes de sair, o PT mesmo faça a “limpeza étnica” – decrete o abandono aos pobres.

Em segundo lugar porque o argumento legal que pode tirar Dilma do Poder hoje é o uso de dinheiro da corrupção em sua campanha eleitoral. Este fato pode ser provado e já serve de argumento suficiente para caçar o mandato. O problema é o seguinte: qual deles não se utilizou do dinheiro de corrupção para chegar ou manter o poder? Por isso também não mudam a lei.

Bem, mas será que não resta nada de bom nessa história toda?

Penso que algo de bom pode surgir. Aliás, está surgindo. Na semana passada, dialogando com um grande amigo sobre a política nacional, nós chegamos à conclusão que a rotatividade de governos diferentes e o retorno das grandes lideranças dos movimentos sociais e sindicais ao posto de oposição poderá gerar uma dialética saudável ao nosso país. Além disso, problemas que já fazem parte de nossa cultura – como a corrupção, por exemplo – só mudam através de enfrentamentos de grandes crises. O que aconteceu com outros países da Europa após a destruição das grandes guerras mundiais. A nossa esperança é que essa crise possa fazer emergir em nosso país uma nova consciência e postura, principalmente diante da corrupção, que o brasileiro não aguenta mais.


Concluímos então com essa esperança, que pode ser ou não compartilhada por você.

*Doutorando em Ciências das Religiões e professor de filosofia da Universidade Regional do Cariri (URCA)

2 comentários:

  1. Sou um grande fã, do professor Tolovi, como sempre, grandes ponderações!!

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